
António Guterres, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, não poupou nas palavras ao criticar a recente onda de turismo espacial protagonizada pelos homens mais ricos do mundo. Durante o seu discurso de abertura na Assembleia Geral, o líder português destacou o abismo crescente entre os super-ricos e a população global, conforme avança a Associated Press, apontando que enquanto uns viajam para o espaço, milhões continuam a passar fome no nosso planeta.
O contraste entre as estrelas e a fome
O verão ficou marcado pelas curtas viagens além da atmosfera da Terra por parte de Richard Branson e Jeff Bezos. Ambos utilizaram foguetões desenvolvidos pelas suas próprias empresas para alcançar a fronteira espacial, captando a atenção mediática de todo o globo, apesar de não terem chegado a entrar em órbita. No entanto, para Guterres, estas aventuras servem apenas para espalhar uma doença de desconfiança num mundo que já sofre de demasiados problemas. O líder da ONU sublinhou a imagem de magnatas a passear pelo cosmos enquanto as dificuldades terrenas se agravam, recordando o momento em que Branson celebrou o seu regresso pulverizando champanhe sobre a sua tripulação.
A crítica de Guterres não se ficou pelas viagens, juntando estes passeios turísticos a outros males globais, como a corrupção, a perda de liberdades e a falta de esperança. Para o responsável, a frustração atinge o limite quando os pais olham para o futuro dos seus filhos e o veem ainda mais sombrio do que as lutas do presente.
Uma exceção solidária e a questão dos impostos
Curiosamente, nem todas as viagens espaciais recentes seguiram exatamente o mesmo padrão de mero entretenimento pessoal. Jared Isaacman liderou a primeira missão orbital totalmente privada a bordo de uma cápsula e foguetão desenvolvidos pela empresa de Elon Musk. Esta missão, que regressou após três dias no espaço, assumiu um cariz solidário, conseguindo angariar mais de 185 milhões de euros para um hospital de investigação infantil.
Apesar desta exceção pontual, o escrutínio público sobre as fortunas destes pioneiros do turismo espacial continua a aumentar. As revelações de que Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, não pagou impostos federais sobre o rendimento em anos como 2007 e 2011 reacenderam o debate internacional. Várias vozes críticas exigem agora a taxação agressiva das grandes fortunas, numa tentativa de equilibrar a balança social que a nova corrida espacial comercial veio colocar em evidência.












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