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iPhone a ouvir

Muitos de nós já passaram por uma experiência arrepiante com o telemóvel: falar sobre um assunto específico, como uma viagem ou um tipo de comida, e minutos depois ver conteúdo exatamente sobre isso no TikTok ou no Instagram. Embora a sensação de que estamos a ser ativamente escutados seja quase universal, os especialistas da indústria garantem que a verdadeira explicação reside em algoritmos complexos de recolha de dados, e não em vigilância através do microfone.

Conforme analisado num documento de investigação sobre o tema, e corroborado por veteranos da publicidade, a ideia de que os dispositivos gravam áudio para nos apresentar anúncios é um mito tecnológico. Ari Paparo, autor e consultor do setor, garante de forma categórica que o telemóvel não está a ouvir passivamente os utilizadores para fins publicitários, sublinhando que processar e interpretar o áudio de milhares de milhões de equipamentos em todo o mundo para cruzar com anúncios seria uma tarefa tecnicamente impossível.

A ilusão da escuta ativa

Se o áudio não está a ser gravado, por que motivo os anúncios parecem tão assustadoramente precisos? A resposta está na capacidade das empresas de inferir informações detalhadas sobre cada pessoa. Os anunciantes não precisam de ouvir as tuas conversas porque conseguem deduzir os teus interesses, a tua idade e a tua localização com base nos sites que visitas e nas aplicações que utilizas diariamente.

Esta combinação de pegadas digitais cria um perfil incrivelmente preciso. Além disso, a partilha da mesma ligação de internet em casa desempenha um papel fundamental nesta ilusão. Se um familiar pesquisar por um descascador de cenouras após uma conversa sobre o tema, a rede de publicidade pode não distinguir entre os diferentes utilizadores na mesma habitação, acabando por mostrar o anúncio a ambos.

O impacto da rede partilhada e os testes em ambiente real

Para comprovar estas teorias, David Choffnes, professor de Ciência da Computação na Universidade de Northeastern, realizou testes extensivos para verificar se os smartphones estão realmente a espiar as nossas conversas. A equipa analisou milhares de aplicações num dispositivo Android para perceber se, durante a interação, o áudio era gravado e enviado para servidores externos.

Os resultados não revelaram qualquer gravação sub-reptícia de informações sonoras. No entanto, o professor destacou que as empresas são extremamente eficientes a monitorizar todo o comportamento online. Para aprofundar o estudo, Choffnes montou um apartamento falso repleto de equipamentos ligados à internet, desde eletrodomésticos inteligentes a colunas e câmaras, com o intuito de identificar para onde os dados estavam a ser transmitidos de forma invisível.

A recolha de dados e a importância do navegador

A realidade é que os anunciantes não sabem o teu nome ou a tua morada exata, mas sabem em que categorias de consumo te enquadras. Em muitas regiões, as empresas de recolha de dados são obrigadas a fornecer o perfil publicitário aos utilizadores que o solicitem. O relatório de Choffnes, por exemplo, continha mais de 300 páginas de inferências, embora nem todas fossem precisas — o documento indicava que ele possuía uma consola Xbox e que tinha uma enorme probabilidade de ir num cruzeiro, duas afirmações que o investigador garantiu serem totalmente falsas.

Para minimizar o volume de dados entregue aos anunciantes, existem passos que os consumidores podem tomar, incluindo a pressão sobre os legisladores para a criação de leis que favoreçam a privacidade do público em detrimento das empresas. A escolha das ferramentas de navegação também faz a diferença. O navegador Safari, por exemplo, bloqueia grande parte desta monitorização por defeito, o que o torna pouco popular entre a indústria publicitária.

Apesar de todas as provas técnicas apontarem no sentido oposto, Ari Paparo mantém-se realista quanto à perceção do público. O especialista reitera que os telemóveis não estão a escutar as conversas em segredo, mas conclui com humor que tem a certeza absoluta de que ninguém vai acreditar nele.

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