
Há cerca de um ano, o empreendedor tecnológico Dan Thomson adquiriu uma ilha na província de Palawan, nas Filipinas, para criar um projeto completamente insólito: um país cujas rédeas estão nas mãos de um conselho de bots. Batizada em honra da sua empresa, esta micronação despertou a curiosidade global e conta com mais de 12 mil candidatos à cidadania, de acordo com os detalhes do projeto na Sensay Island.
A ideia principal não passa apenas por criar um refúgio tropical para mergulho e turismo, mas sim uma experiência social e tecnológica onde líderes históricos ditam o rumo do território. O governo de Sensay é composto por avatares de figuras marcantes como Winston Churchill, Marco Aurélio, Nelson Mandela, Sun Tzu, Leonardo da Vinci e Gandhi, todos alimentados por modelos avançados de inteligência artificial.
Um conselho de líderes históricos digitais
A dinâmica governativa da ilha baseia-se numa premissa invulgar. Qualquer proposta apresentada é encaminhada para o conselho digital. As entidades debatem os argumentos entre si, analisam as perspetivas baseadas nas suas vastas recriações históricas e, por fim, votam. Depois de tomada a decisão, cabe aos humanos executar as ordens aprovadas à letra. Dan Thomson admite que encontrar pessoas dispostas a seguir as decisões da máquina de forma totalmente imparcial pode ser um desafio inicial. No entanto, o criador acredita que o papel humano será cada vez menor à medida que a tecnologia ganhe autonomia financeira, utilizando carteiras de criptomoedas para contratar os seus próprios trabalhadores manuais.
Para já, a população permanente da ilha resume-se a apenas um habitante: Mike, o jardineiro do espaço. Contudo, a ilha tem capacidade para albergar cerca de 30 moradias. O arranque da experiência com os chamados "e-residentes" é esperado para este verão, enquanto o programa formal de residência está previsto ser lançado em 2027. O processo de seleção está a cargo de Piotr Pietruszewski-Gil, que analisa os perfis dos candidatos, notando que muitos procuram este modelo por estarem fartos da corrupção e das promessas falhadas dos governos tradicionais da vida real.
O interesse global e as dúvidas da comunidade científica
A confiança de Thomson na tecnologia é tão profunda que o próprio mantém um assistente virtual ativo a toda a hora. Este bot recolhe informações diárias e organiza a sua agenda com o objetivo principal de criar uma cópia digital do fundador que perdure no tempo. No caso do conselho de Sensay, a fiabilidade baseia-se no vasto arquivo histórico destas figuras públicas, o que permite aos modelos criar perfis focados em princípios maiores, deixando de lado as motivações e fraquezas humanas.
Ainda assim, entregar as chaves de um território a um sistema algorítmico gera forte apreensão. Alondra Nelson, investigadora do Instituto de Ética em IA da Universidade de Oxford, descreve a pretensão democrática do projeto como uma verdadeira encenação, alertando para os constantes problemas que estas tecnologias apresentam no quotidiano. A investigadora sublinha a contradição óbvia de uma única empresa e de um único fundador ditarem as regras de um espaço que se afirma livre, apelidando a situação de profundamente antidemocrática.
Apesar das críticas de especialistas e da total ausência de reconhecimento jurídico internacional, o fundador mantém o entusiasmo inabalável pela sua micronação. Para Dan Thomson, o grande fascínio reside em descobrir o desfecho desta experiência, não descartando a hipótese de os residentes humanos acabarem por nomear figuras tirânicas para o conselho. A única certeza é que a experiência ditará o resultado.












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