
Enquanto os Estados Unidos celebravam a sua primeira vitória no Mundial de futebol e o título dos New York Knicks, a Anthropic passou o fim de semana em negociações intensas com a administração de Donald Trump. Na sexta-feira, a empresa recebeu uma diretiva de controlo de exportações para suspender o acesso aos seus modelos de inteligência artificial Mythos 5 e Fable 5 a qualquer cidadão estrangeiro. Para cumprir a ordem, a tecnológica viu-se obrigada a desativar completamente os produtos que tinha acabado de lançar.
Ultimato e negociações em Washington
A ordem do governo norte-americano chegou sob a forma de um ultimato. Na sexta-feira, a administração contactou a empresa e deu um prazo de 90 minutos para cortar o acesso aos modelos, sob a ameaça de impor controlos de exportação através do Departamento do Comércio dos EUA.
Perante a gravidade da situação, os executivos da empresa entraram em contacto com a Casa Branca em apenas quinze minutos. O presidente executivo, Dario Amodei, juntou-se às conversações pouco depois, dialogando diretamente com figuras de relevo do governo, incluindo o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, o Secretário do Comércio, Howard Lutnick, e o Diretor Nacional de Cibernética, Sean Cairncross. Durante o fim de semana, a equipa viajou para Washington na esperança de reverter a diretiva imposta.
Receios de segurança e o papel da Amazon
Os modelos Mythos 5 e Fable 5 partilham a mesma base do Mythos Preview, uma versão que a própria empresa considerou demasiado perigosa para lançamento público. O bloqueio atual terá tido origem numa preocupação do governo de que um grupo ligado à China pudesse ter acedido à tecnologia. No entanto, a empresa esclareceu que essas suspeitas envolviam uma empresa de telecomunicações global que tinha autorização para testar o Mythos Preview, acesso esse que foi revogado assim que os receios surgiram.
Paralelamente, a tecnológica revelou que o governo tomou conhecimento de um método para contornar as proteções do Fable 5. O alerta terá partido de uma entidade parceira, e indicações apontam para Andy Jassy, presidente executivo da Amazon, cujos investigadores testaram ativamente as defesas do modelo. A empresa defende-se, afirmando que a vulnerabilidade encontrada não é universal e que capacidades semelhantes estão amplamente disponíveis noutros modelos concorrentes, como o GPT-5.5 da OpenAI.
Impacto na indústria e corrida tecnológica
A decisão da administração gerou uma onda de contestação no setor da tecnologia e cibersegurança. Numa carta aberta, vários executivos pediram a revogação das restrições ao Fable 5, alertando que afastar estes modelos avançados pode conceder uma vantagem significativa à China na corrida pela inteligência artificial.
Alex Stamos, diretor de produto da Corridor e organizador da carta, destacou que as ferramentas da empresa são cruciais para corrigir vulnerabilidades informáticas antigas antes que sejam exploradas por atores maliciosos. O especialista criticou a postura do governo, considerando arrogante a crença de que os laboratórios americanos manterão sempre uma liderança inalcançável. Ben Van Roo, líder da Legion Intelligence, também reagiu, classificando a proibição de uso por cidadãos estrangeiros como impossível de aplicar na prática.
A situação torna-se ainda mais complexa pelo facto de rivais como a Google e a Microsoft possuírem produtos com capacidades idênticas. Se a administração mantiver o bloqueio, poderá criar um precedente para restringir toda a concorrência ou forçar a indústria a unir-se perante regulamentações sem precedentes. As negociações terminaram na segunda-feira sem uma resolução definitiva, deixando as ferramentas da empresa num território incerto.












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