
A Vinted, uma das plataformas de comércio de segunda mão mais utilizadas pelos portugueses, está no centro de uma complexa investigação policial em França. Uma vaga de anúncios com peluches e brinquedos a preços exorbitantes, acompanhados de descrições perturbadoras que remetem para características físicas de crianças, acionou os alarmes das autoridades para um possível esquema de tráfico de menores.
Códigos ocultos e descrições perturbadoras
O caso ganhou tração após dezenas de utilizadores denunciarem nas redes sociais publicações que pareciam esconder intenções sombrias. Em vez de simples brinquedos, os anúncios apresentavam valores na ordem das dezenas de milhares de euros e detalhes altamente atípicos. Um dos exemplos mais graves detalhava um artigo de 30 mil euros com a indicação "9 anos, bom estado. Feminino, branco e virgem".
Face à gravidade da situação, a Polícia Nacional francesa encaminhou múltiplas queixas para a PHAROS, a entidade responsável por rastrear conteúdos ilegais online no país. De acordo com informações avançadas pela rádio Europe 1 e pelo jornal El Mundo, os investigadores analisam a hipótese de a plataforma estar a ser usada como um canal de comunicação cifrado entre indivíduos com intenções de abuso infantil. Até ao momento, não existem provas concretas que confirmem uma rede organizada a operar através da plataforma.
O impacto e a resposta da plataforma
A investigação preliminar já foi aberta pelo tribunal de Nanterre, com o Gabinete para os Menores (Ofmin) a conduzir as averiguações iniciais. O alerta social intensificou-se no contexto do desaparecimento de Lyhanna, uma criança de 11 anos, ocorrido a 29 de maio em França. Este evento levou as autoridades a reverem cerca de 70 mil denúncias antigas relacionadas com casos de violência ou abuso sexual contra menores.
Curiosamente, a investigação revelou que nem todos os anúncios tinham uma origem criminosa direta. Um dos casos que chamou a atenção da Alta-comissária para a Infância, Sarah El Haïry, que classificou a situação como arrepiante, revelou-se ser da autoria de um adolescente de 17 anos. O jovem criou a publicação falsa numa tentativa de atrair e expor pedófilos na internet.
A Vinted já reagiu oficialmente, assegurando que aplica uma política de tolerância zero a conteúdos inadequados e que colabora ativamente com as forças de segurança sempre que necessário. A empresa tecnológica lituana reitera que, até à data, não encontrou elementos que liguem diretamente estes anúncios a atividades de tráfico.
Este fenómeno não é inédito no comércio eletrónico. Em 2020, a Wayfair e a Etsy enfrentaram polémicas semelhantes com artigos listados a preços absurdos, que investigações posteriores provaram não estar ligados a redes criminosas. Para os milhares de utilizadores em Portugal, o caso serve como um lembrete prático: qualquer atividade ou descrição suspeita em plataformas de compra e venda deve ser imediatamente reportada através das ferramentas da própria aplicação, evitando o contacto direto ou a partilha de dados com os vendedores.












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