
A Reflect Orbital recebeu aprovação para lançar um satélite de demonstração com a capacidade inédita de refletir a luz solar em direção à superfície terrestre durante o período noturno. De acordo com o documento partilhado pela Comissão Federal de Comunicações dos EUA, a autorização concedida foca-se exclusivamente na utilização do espectro de rádio, deixando de lado as crescentes preocupações levantadas por especialistas sobre os impactos no céu noturno.
O equipamento, batizado de Earendil-1, dispõe de um refletor de película fina ajustável e altamente especular. O satélite inclui também um sistema de propulsão integrado, concebido para evitar colisões e realizar manobras na órbita terrestre baixa. O objetivo de longo prazo da empresa passa por operar uma rede semelhante à Starlink, capaz de direcionar luz solar a pedido. Esta funcionalidade tem o potencial de manter painéis solares em funcionamento contínuo ou aumentar a visibilidade para equipas de busca e salvamento. Numa altura em que países como Portugal apostam fortemente na produção de energia fotovoltaica, a capacidade de gerar eletricidade durante a noite cria perspetivas de mercado singulares. Para já, o conceito será testado com apenas uma unidade.
Oposição da comunidade científica
A premissa da Reflect Orbital motivou forte resistência por parte da Sociedade Astronómica Americana (AAS), que se reuniu com os responsáveis pelo licenciamento para expor os riscos. O grupo argumenta que a infraestrutura difere estruturalmente dos satélites de telecomunicações comuns, uma vez que foi concebida para ser o mais brilhante possível. Esta característica torna a mitigação dos impactos na investigação espacial uma tarefa extremamente complexa.
Além da interferência nos telescópios de investigação, a AAS alerta para o risco de danos oculares imediatos caso astrónomos amadores observem o Earendil-1 através de um telescópio com uma abertura superior a 12 polegadas. O encandeamento temporário de pilotos de aviação e condutores foi igualmente apontado como uma consequência grave. A própria empresa já reconheceu o risco associado à observação direta com equipamentos de grande abertura.
A posição das autoridades reguladoras
Na sua deliberação final, a entidade reguladora norte-americana recusou avaliar as objeções visuais e ambientais. A comissão sustentou a decisão na legislação dos EUA, que estipula o encorajamento e fornecimento de novas tecnologias ao público. Na ótica da organização, os riscos para a saúde e ambiente não estão relacionados com a sua função primária de autorizar o uso de frequências de rádio.
Para mitigar as críticas, a Reflect Orbital lista no seu portal oficial um conjunto de precauções operacionais. A empresa garante que a reflexão de luz ocorrerá apenas em horários predeterminados, com avisos prévios à comunidade de investigadores, evitando direcionar o feixe luminoso para observatórios e áreas protegidas. Como salienta James Verner, da organização Dark Sky UK, o licenciamento desta tecnologia levanta uma questão central: se o regulador não tem o mandato para examinar as consequências visuais destas plataformas no céu, fica por definir quem assume essa responsabilidade.












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