
O mais recente relatório anual da Fortinet sobre cibersegurança e tecnologia operacional (OT) traça um retrato revelador do atual panorama industrial. Baseado num inquérito global a mais de 700 profissionais da área, os dados de 2026 demonstram que as organizações estão finalmente a encarar a proteção dos seus ambientes críticos com uma dose necessária de realismo. A crescente interligação entre os sistemas de tecnologia de informação (IT) e as operações fabris trouxe evidentes ganhos de eficiência, mas abriu portas a riscos que as lideranças empresariais já não podem ignorar.
O paradoxo da maturidade e a gestão de topo
A evolução das defesas tecnológicas está a gerar um fenómeno curioso na autoavaliação das entidades. O documento indica que apenas 17% das empresas se consideram agora no Nível 4 de maturidade em cibersegurança — o patamar mais avançado —, o que representa uma quebra drástica face aos 49% registados em 2025. Longe de ser um retrocesso, esta descida ilustra uma correção de perspetiva. Com financiamento reforçado e ferramentas de monitorização superiores, as falhas operacionais que antes passavam despercebidas tornaram-se óbvias e incontornáveis.
Esta tomada de consciência tem um reflexo direto na hierarquia das organizações. Atualmente, 60% dos inquiridos confirmam que o Diretor de Segurança de Informação (CISO) detém a responsabilidade final pela proteção dos ambientes OT. Embora represente uma ligeira descida em relação aos 69% do ano transato, a atenção executiva mantém-se firme. Nas infraestruturas onde esta pasta ainda não está formalmente atribuída ao CISO, a esmagadora maioria (81%) planeia fazê-lo no prazo máximo de um ano.
Ameaças persistentes e o peso da regulamentação
A deteção de problemas acompanhou naturalmente a melhoria da visibilidade. Cerca de 71% dos especialistas reportaram entre uma a nove violações de segurança nas suas redes, uma subida expressiva face aos 47% assinalados no período homólogo. A franja de entidades que sofreu mais de dez intrusões estabilizou nos 2%. O cenário das ameaças continua a ser ditado por métodos clássicos, com o phishing a encabeçar as ofensivas (76%), seguido da preocupação central com ataques de ransomware (50%).
Apesar do panorama exigente, os esforços de contenção mostram resultados sólidos. O relatório avança que apenas 24% das empresas viram os seus sistemas IT e OT comprometidos em simultâneo, uma queda acentuada perante os 60% de 2025 e o melhor registo desde 2022.
Para os operadores industriais, a implicação prática destas métricas traduz-se na urgência de abandonar arquiteturas de proteção isoladas. Com 89% dos inquiridos a antecipar um agravamento da regulamentação nos próximos cinco anos, a adoção de plataformas unificadas e a microssegmentação de redes deixaram de ser recomendações técnicas. Estes passos assumem-se agora como requisitos imediatos para garantir a continuidade de negócio num mercado onde a tolerância a falhas industriais é cada vez menor.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!