
O antigo endereço web da Cambridge Analytica, empresa ligada a um dos maiores escândalos de privacidade da internet, está de volta sob uma nova identidade. Agora batizado de CA Privacy Watch, o portal dedica-se a publicar notícias sobre tecnologia, mas uma investigação do Futurism revelou que a página funciona como uma rede de conteúdos automatizados, sustentada por plágio e perfis de jornalistas fictícios.
A Cambridge Analytica tornou-se mundialmente conhecida em 2018, após a revelação de que recolheu dados de dezenas de milhões de utilizadores do Facebook sem permissão para influenciar as eleições presidenciais norte-americanas de 2016. O domínio original, CambridgeAnalytica.org, expirou em 2025 e foi posteriormente adquirido por novos proprietários. Na sua apresentação inicial, o novo portal garantia que todos os artigos eram escritos e revistos por humanos, rejeitando a automatização. Contudo, após o contacto dos investigadores norte-americanos, a descrição foi alterada de forma silenciosa para admitir o uso de ferramentas de inteligência artificial na edição.
Plágio e jornalistas que não existem
A análise ao novo portal expôs uma cópia massiva de trabalhos jornalísticos de veículos como The New York Times, Wired, MIT Technology Review, Engadget e 404 Media. Num exemplo documentado, um artigo sobre as câmaras de vigilância da empresa Flock clonou uma reportagem publicada poucas horas antes pelo jornalista Matthew Gault da 404 Media, sem atribuir qualquer crédito à publicação original.
Submetidos ao detetor Pangram, dez textos do site acusaram ser 100% gerados por inteligência artificial. Estes artigos exibem falhas típicas de geração automática, incluindo imagens com defeitos evidentes e referências vagas a entidades genéricas, sem especificar nomes.
O esquema estende-se à própria equipa editorial, onde vários autores creditados simplesmente não existem. "Nicolas Menier", apresentado como um especialista em ciência, não possui qualquer registo profissional válido, e a sua fotografia de perfil foi furtada da conta de um engenheiro canadiano no LinkedIn. Outros supostos colaboradores com origem em Madagáscar não responderam aos pedidos de esclarecimento da equipa de reportagem.
Um esquema global de domínios expirados
A rede responsável pelo CA Privacy Watch controla igualmente outros endereços antigos de renome, reaproveitados em massa para otimização em motores de busca (SEO). Entre as vítimas desta prática de reativação encontram-se o antigo jornal francês Le Ravi, encerrado em 2022, o portal CMU.fr e o History in Politics. Todos partilham o mesmo destino e foram convertidos em repositórios para publicar um volume massivo de textos sobre assuntos variados.
Os administradores do portal identificam-se como Vortexlab Digital Marketing, uma suposta agência sediada no Dubai. A investigação revelou, no entanto, que os emails fornecidos devolvem mensagens de erro, as empresas apresentadas como clientes não têm provas de existência, e o número de telefone associado pertence a uma pessoa que negou qualquer relação com o grupo.
Gisele Navarro, editora-chefe do HouseFresh, explicou as dinâmicas deste mercado de aproveitamento e desinformação. "É evidente que a estratégia deles tem sido adquirir domínios expirados, antes considerados de confiança, para os transformar rapidamente em quintas de conteúdo clickbait", afirmou. O objetivo prático é capitalizar a autoridade herdada pelas ligações destes domínios antigos para atrair tráfego fácil, gerando receitas através de conteúdos automatizados durante a janela temporal em que os motores de busca ainda não reduziram a sua visibilidade orgânica.












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