
As empresas tecnológicas na China captaram cerca de 217 mil milhões de dólares em ações e obrigações nos últimos dois anos para impulsionar a expansão do setor. De acordo com dados avançados pela Bloomberg, o movimento reflete o esforço de Pequim em utilizar os mercados de capitais para financiar a disputa tecnológica com os Estados Unidos, com especial foco na produção de chips de IA. Apesar do volume expressivo, a quantia angariada pelas companhias chinesas continua a ser mais de seis vezes inferior à captada pelas congéneres norte-americanas no mesmo período.
Esta viragem surge numa altura em que o governo chinês procura reforçar a capacidade doméstica de fabrico de semicondutores e reduzir a dependência face a fornecedores externos. Os mercados chineses de ações e títulos da dívida, avaliados globalmente em cerca de 28 biliões de dólares, assumiram um papel central no financiamento de áreas estratégicas. Esta abordagem assinala uma transição clara face ao modelo tradicional assente sobretudo em subsídios diretos do Estado e incentivos fiscais.
Mudança de estratégia para sustentar os semicondutores
A estreia da fabricante de memórias CXMT na Bolsa de Valores de Xangai tornou-se um dos casos mais emblemáticos desta nova dinâmica. A empresa angariou 57,92 mil milhões de yuans, o equivalente a cerca de 8,6 mil milhões de dólares, naquela que foi a maior oferta pública inicial (IPO) de uma empresa de semicondutores realizada na China continental. No fecho da primeira sessão bolsista, os títulos dispararam 466%, terminando cotados nos 49 yuans, perante o valor inicial fixado em 8,66 yuans.
O processo de entrada no mercado foi acelerado através de um projeto-piloto regulatório que permitiu analisar questões decisivas antes da submissão formal do pedido, reduzindo o intervalo de preparação para menos de oito meses. Poucos dias antes da estreia, os reguladores, fundos estatais e grandes investidores intervieram para travar uma queda acentuada nas ações tecnológicas do país, numa das maiores operações de sustentação de mercado registadas recentemente na região.
O caso da CXMT e o avanço no mercado de dívida
A mobilização de capital estende-se também ao mercado obrigacional. As empresas chinesas de tecnologia venderam pelo menos 38 mil milhões de dólares em obrigações este ano, registando o volume mais elevado para este período desde 2016. As taxas de juro médias pagas fixaram-se nos 1,9%, valor que se situa mais de 300 pontos-base abaixo do custo suportado pelas concorrentes americanas, uma disparidade não registada desde antes de 2015.
Apesar do elevado ritmo de investimento, a estratégia acarreta riscos para os investidores. Gary Tan, gestor de portfólio na Allspring Global Investments, alertou para o facto de as ações da CXMT estarem "a ser negociadas com prémio em relação a empresas globais do setor de memória, enquanto políticas públicas e a oferta limitada de papéis podem estar a influenciar os preços mais do que os fundamentos da companhia".
Outras tecnológicas focadas em inteligência artificial, como a Z.AI, MiniMax, Moonshot AI e DeepSeek, preparam já a entrada na bolsa. Como destacou Hong Hao, diretor de investimentos na Lotus Asset Management, "na China, se o capital não vier do Estado, acaba por ter de vir do mercado". Para o ecossistema global de hardware, esta injeção massiva de capital privado pode alterar o equilíbrio de fornecimento e os custos de componentes eletrónicos nos próximos anos.












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