
Nos últimos 18 meses, o preço da memória RAM subiu de forma dramática, e a perspetiva é de que continue a encarecer durante o resto do ano. Uma componente que apresentava descidas consistentes desde os anos 60 transformou-se agora num artigo de luxo, impulsionando os custos de cada novo telemóvel, computador e tablet. O mercado batizou a atual realidade de "RAMpocalypse", motivada inteiramente pela escalada da inteligência artificial (IA) e pelo esgotamento da capacidade de produção mundial.
A sede insaciável da infraestrutura global
O mercado da memória está concentrado em três empresas: a Samsung, a SK Hynix e a Micron. Em eletrónica de consumo, o formato habitual é a memória DRAM (como a DDR ou LPDDR), enquanto os ambientes de computação de topo exigem HBM (High Bandwidth Memory). Apesar de não serem intermutáveis, ambas derivam dos mesmos blocos de silício, sendo a montagem distinta consoante o uso final. Sanjay Mehrotra, CEO da Micron, explicou em 2024 que cada unidade de HBM consome cerca de 3 vezes o fornecimento de wafers de uma memória DDR5 de consumo. A febre da IA forçou os fabricantes a reorientar o seu foco e os relatórios da DigiTimes indicam que a capacidade global de fabrico de RAM para 2027 já foi totalmente vendida.
Um exemplo da escala desta disrupção reside num único centro de dados. As instalações Colossus da xAI em Memphis albergam 555.000 GPUs da NVIDIA, num projeto de hardware avaliado em 16,3 mil milhões de euros. A infraestrutura integra 520.000 GPUs Grace Blackwell 200 (192 GB de RAM), 30.000 Grace Blackwell 300 (288 GB) e 30.000 unidades H100 e H200 (com alocações de 80 GB, 94 GB e 141 GB). Feitas as contas, apenas esta localização consome até 112.005.000 GB de RAM, um valor equivalente a 14.000.625 unidades do iPhone 17 ou 9.333.750 do Galaxy S26. Uma investigação da Bloomberg apontou, em março, para a existência de 831 locais similares em construção.
Os investimentos em larga escala não mostram abrandamento. Em outubro de 2025, a OpenAI e a AMD formalizaram um acordo para construir centros de dados com 6 GW de potência. O primeiro 1 GW usará GPUs Instinct MI450, capazes de suportar 432 GB de memória. Utilizando a métrica de que cerca de 450.000 GPUs preenchem 1 GW, este projeto inicial absorverá até 194.400.000 GB de RAM (o mesmo que 24,3 milhões de iPhones 17). E tudo isto representa apenas um sexto do acordo total.
Preços multiplicados num cenário sem fim à vista
Os reflexos no mercado consumidor atingiram níveis extremos. Registos da plataforma PCPartPicker revelam que um conjunto de 16 GB de RAM DDR5-4800, que custava menos de 91 euros no início de 2025, supera agora os 363 euros. No patamar superior, 32 GB de DDR5-6000 saltaram da casa dos 227 euros para uns inéditos 1.090 euros, um valor que permite comprar um MacBook Air inteiro.
Kwak Noh-jung, CEO da SK Hynix, admitiu à Reuters que o panorama piorará em 2027 e espera que a procura continue a asfixiar a oferta para além de 2030. Sanjay Mehrotra antevê condições difíceis para além do ano civil de 2028, enquanto a consultora Deloitte afasta qualquer sinal de normalização até 2030, na melhor das perspetivas. A expansão da capacidade industrial esbarra na extrema complexidade do fabrico: as salas limpas de classe 1 da Micron não admitem mais do que uma partícula de pó por pé cúbico. A SK Hynix comprometeu-se a investir 34,6 mil milhões de euros em duas novas fábricas na Coreia do Sul, mas as linhas arrancarão apenas em junho de 2029.
Com o HBM a garantir lucros substanciais, o encerramento da marca de consumo Crucial pela Micron no final de 2025 marcou a viragem das fabricantes. O vice-presidente executivo Sumit Sadana assumiu na altura: "A Micron tomou a difícil decisão de sair do negócio de consumo Crucial de forma a melhorar a oferta e o suporte para os nossos clientes maiores e estratégicos em segmentos de crescimento mais rápido". A estratégia compensou, com a Micron a apresentar em junho uma faturação trimestral de 26,2 mil milhões de euros e uma margem bruta de 84,9%. A SK Hynix confirmou lucros operacionais superiores em 557% face ao ano transato no mês de julho e a Samsung atingiu igualmente o pico histórico de receitas. As dinâmicas levaram mesmo a Micron a pedir à Casa Branca para impedir que os seus clientes procurassem alternativas no exterior, de acordo com o The Wall Street Journal.
Para quem precisa de comprar memória hoje, esperar quatro anos pela estabilização arrisca ser impraticável. Se o cenário for premente, a opção sensata é adquirir agora para evitar o custo agravado no futuro, havendo já quem tema a diferença entre pagar os módulos 500 vezes mais caros hoje em vez de 1500 vezes mais caros em 2028. Restará ao mercado aguardar a entrada de hardware usado nos circuitos de venda ou o eventual colapso prematuro desta corrida.












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