
Um estudo focado na obra renascentista Madonna della Rosa concluiu que o rosto de São José, presente na composição, muito provavelmente não foi pintado pelo mestre Rafael. A investigação vem dar resposta a um debate com mais de um século no campo da história da arte, suportando a teoria de que a pintura terá tido a intervenção de assistentes do pintor italiano.
Segundo os dados partilhados pela Universidade de Nottingham, a análise foi publicada na revista Heritage Science em dezembro de 2023 e indica que, à exceção do rosto em causa, a esmagadora maioria da tela é consistente com o estilo e a técnica que notabilizaram Rafael.
O mistério em torno da autoria
A pintura, mantida na coleção do Museo del Prado em Madrid, Espanha, foi concluída por volta de 1517 ou 1518. Durante as primeiras análises, os peritos assumiram tratar-se de um trabalho desenvolvido de forma exclusiva pelo mestre. O cenário mudou a partir de meados de 1800, quando o historiador Johann David Passavant começou a questionar se o artista teria desenhado todas as secções, sugerindo a possível participação da sua oficina.
Mais tarde, o professor Jurg Meyer zur Capellen, especialista na obra de Rafael, reforçou que o pupilo Giulio Romano poderia ter contribuído de forma direta. Embora as teorias anteriores colocassem em dúvida a criação da própria rosa e da parte inferior do quadro, o novo método científico apurou agora que toda essa secção inferior é "muito provavelmente" da autoria de Rafael.
A tecnologia ao serviço do património
Para chegarem a estas conclusões, investigadores das Universidades de Nottingham, Bradford e Stanford treinaram um sistema de inteligência artificial com imagens de quadros genuínos de Rafael. Com recurso a aprendizagem por transferência e a técnicas de deteção de bordas — que sinalizam mudanças abruptas na imagem —, o computador aprendeu a identificar traços visuais precisos, desde pinceladas a transições de cor e sombreamento.
Durante os ensaios, o algoritmo criado por Hassan Ugail obteve 98% de precisão ao distinguir obras legítimas do pintor. Ao analisarem a Madonna della Rosa como uma imagem única, a máquina não conseguiu gerar uma resposta absoluta, forçando a equipa a fatiar a avaliação.
"Quando testámos a della Rosa como um todo, os resultados não foram conclusivos. Por isso, testámos as partes individuais e, enquanto o resto da imagem foi confirmado como Rafael, o rosto de José surgiu como muito provavelmente não sendo de Rafael", explicou Hassan Ugail, diretor do Centro de Computação Visual e Sistemas Inteligentes da Universidade de Bradford.
O investigador Howell Edwards referiu que a Madonna, o Menino Jesus e São João Batista foram "inequivocamente pintados por Rafael", enquanto a face de São José terá sido executada por outra pessoa, apontando novamente para o nome de Giulio Romano. Christopher Brooke e David G. Stork, membros da investigação, clarificaram que a tecnologia não substitui os peritos humanos ou os estudos de espetroscopia, afirmando-se antes como uma ferramenta de apoio direto na validação histórica de património.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!