
Investigadores da Universidade de Cambridge desenvolveram uma biocélula alimentada por cianobactérias, também conhecidas como algas azuis-esverdeadas, capaz de gerar eletricidade de forma ininterrupta há mais de seis anos. O projeto aproveita o fluxo natural de eletrões libertado durante a fotossíntese para produzir corrente elétrica contínua. Os organismos vivem numa câmara selada e transparente, onde a equipa capta apenas uma pequena fração dos eletrões gerados, mantendo o organismo saudável para garantir energia duradoura.
Da investigação científica ao protótipo de consumo
A ideia começou a ser trabalhada há duas décadas pelo investigador Paolo Bombelli, do Departamento de Bioquímica de Cambridge, em conjunto com o professor Chris Howe. Para transformar a descoberta laboratorial num produto real, a equipa recrutou a bio-designer Lucia Giron, cuja vocação surgiu ao observar bactérias bioluminescentes numa praia da Carolina do Norte, e o engenheiro eletrotécnico Lifu Tan.
O trabalho conjunto resultou numa câmara compacta do tamanho da palma da mão, envolvida por uma estrutura metálica com um padrão de folhas. O dispositivo já serviu para alimentar um relógio digital e um sensor de temperatura. Em ensaios anteriores, realizados em 2022, os cientistas tinham também conseguido alimentar um microprocessador de 32 bits durante mais de seis meses recorrendo a uma biocélula do tamanho de uma pilha AA, com capacidade para produzir cerca de quatro microwatts por centímetro quadrado. Mesmo na ausência de luz, as algas continuam a gerar corrente através da degradação das suas reservas alimentares.
Alternativa sustentável para pequenas pilhas descartáveis
Manter uma bateria "viva" impõe contudo desafios técnicos consideráveis. A luz solar direta em excesso pode matar os organismos, e a câmara exige materiais que permitam a entrada de dióxido de carbono e a saída de oxigénio sem provocar a evaporação da água. Por apresentar uma potência reduzida, o objetivo da equipa não passa por rivalizar com baterias de grande capacidade, mas sim substituir pilhas descartáveis em comandos, detetores de fumo e equipamentos de medição ambiental, evitando o impacto do lítio.
Além do uso doméstico e da monitorização no terreno, demonstrada num teste com sensores de humidade, temperatura e luz em vasos de plantas, o sistema apresenta potencial para zonas rurais sem acesso à rede elétrica em países de baixo rendimento, ajudando no carregamento de telemóveis. O projeto avança agora para a fase comercial através da startup e-Pho, fundada pela própria equipa, enquanto os investigadores trabalham para aumentar a voltagem, a corrente e a densidade de potência do sistema para alimentar dispositivos maiores.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!