
A crescente procura por semicondutores dedicados à inteligência artificial está a provocar uma crise global no fornecimento de memória, com impacto direto no preço de consumo da eletrónica. Segundo dados reunidos pelo portal The Verge, a escassez acelerada de módulos de memória RAM e armazenamento flash está a reverter uma tendência de décadas de redução de custos na indústria, ameaçando encarecer smartphones, consolas de videojogos e computadores nos próximos anos.
A origem do problema antecede a popularização da inteligência artificial generativa, mas foi dramaticamente amplificada por ela. A produção de memória avançada HBM (High-Bandwidth Memory), essencial para aceleradores de IA em centros de dados de gigantes como a Nvidia e a AMD, consome consideravelmente mais recursos de fabrico do que a memória convencional utilizada em dispositivos de consumo. A Micron estima que produzir uma determinada quantidade de memória HBM exige cerca de três vezes mais wafers de silício do que a mesma quantidade de DRAM tradicional.
A corrida à IA consome a capacidade de produção de memórias
Com o mercado fortemente concentrado em três fabricantes principais, a Samsung dominava cerca de 39% do mercado no segundo trimestre de 2026, seguida pela SK Hynix com 26% e pela Micron com 25%, segundo estimativas da consultora Counterpoint. Perante este cenário, as empresas optaram por reencaminhar a capacidade de produção para os clientes de IA corporativos, que garantem contratos plurianuais de valor elevado.
Esta mudança provocou um pico vertiginoso nos custos dos componentes para dispositivos móveis. A Counterpoint estima que o preço da memória DRAM para smartphones subiu 56% no primeiro trimestre de 2026 e mais 83% no segundo trimestre. Para um módulo típico de 16 GB num telemóvel topo de gama, o custo estimado saltou de cerca de 42 nomeiode2025paraaproximadamente181 um ano depois, representando um aumento superior a 300%.
Fábricas gigantescas em construção só trazem alívio a partir de 2027
A resposta da indústria passa pela construção de novas instalações de fabrico de semicondutores, mas o processo exige vários anos de investimento massivo. A Micron, por exemplo, iniciou a construção do seu maior complexo fabril de sempre no estado de Nova Iorque, num projeto com 2,4 milhões de pés quadrados de área limpa. Contudo, apesar dos trabalhos de terraplanagem e betonagem já em curso, a empresa prevê realizar testes no final de 2028 e só antecipa produção relevante a partir de 2030.
Outros projetos de grande escala na Coreia do Sul, impulsionados pela Samsung e SK Hynix com investimentos combinados superiores a 500 mil milhões de dólares, enfrentam horizontes temporais semelhantes. Por esse motivo, consultoras do setor como a IDC e a Counterpoint preveem que o desequilíbrio entre a oferta e a procura se mantenha atrito pelo menos até ao final de 2027 ou início de 2028.
Preços em alta já atingem consolas, portáteis e novos telemóveis
Sem margem para absorver multiplicações nos custos de componentes, as marcas de eletrónica começaram a rever as suas tabelas de preços. A Microsoft aumentou os preços da Xbox entre 100 e150, além de ter ajustado o valor inicial de portáteis da linha Surface em 500 $. A Meta adicionou igualmente 100 $ ao custo do seu dispositivo de realidade virtual Quest 3.
A pressão estende-se também ao segmento dos smartphones topo de gama. A Apple deverá concentrar os seus lançamentos de outono nos modelos mais dispendiosos, como o iPhone 18 Pro e Pro Max, onde as margens de lucro permitem absorver melhor a subida dos custos. Estimativas da indústria apontam para a possibilidade de o iPhone 18 Pro estrear com um valor inicial de 1.299 $, refletindo uma subida de 200 $ face à geração anterior. Segundo os analistas, mesmo que o ritmo de subida dos preços estabilize no futuro, os componentes fixaram-se num novo patamar de custos consideravelmente mais elevado do que no passado recente.







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