
Segundo o The Verge, a Netflix está a concluir os acordos de produção plurianuais que detinha com alguns dos seus realizadores de maior prestígio. Com os estúdios rivais Paramount e Warner Bros. Discovery prestes a formalizar uma megafusão, a empresa repensa a sua abordagem para atrair subscritores e direciona o foco para formatos mais contidos e sustentáveis.
O fim de acordos milionários
Na passada quinta-feira, a plataforma partilhou que a colaboração iniciada em 2020 com David Fincher, inicialmente com uma duração de quatro anos, chegou ao fim. Apesar de o seu filme "Mank" ter alcançado dez nomeações para os Óscares e vencido duas estatuetas, o projeto gerou apenas cerca de 100.000 dólares em receita de bilheteira (aproximadamente 88.800 €), perante um orçamento de 25 milhões de dólares (cerca de 22,2 milhões de euros). O filme ocupou ainda o último lugar do top 10 da plataforma durante um único dia.
Em 2023, o projeto seguinte do realizador, "The Killer", estreou na primeira posição, mas a receita de bilheteira ficou-se pelos 452.000 dólares (cerca de 401.376 €) para um orçamento avaliado em 175 milhões de dólares (cerca de 155,4 milhões de euros). O próximo título assinado por Fincher, "The Further Mis-Adventures of Cliff Booth", ficará em exibição nos cinemas durante duas semanas antes de chegar ao catálogo a 23 de dezembro.
Shawn Levy seguiu um trajeto idêntico. Após quase uma década a criar conteúdos originais como "The Adam Project", "Shadow and Bone" e "Stranger Things", o realizador assinou um novo acordo com a Disney. Esta mudança resultou, em parte, da desilusão manifestada pelo público e pela crítica perante a temporada final de "Stranger Things".

Também os irmãos Matt e Ross Duffer, responsáveis pela referida série, já tinham anunciado em agosto de 2025 a mudança para um projeto de quatro anos com a Paramount. A sua mais recente obra, "The Boroughs", estreou no passado mês de maio com números respeitáveis, mas acabou cancelada ao fim de apenas um mês. Do mesmo modo, Noah Baumbach viu a sua parceria terminar depois de trabalhos como "White Noise" e "Jay Kelly" não terem gerado o impacto esperado.
Um catálogo focado na rentabilidade
Ted Sarandos, co-CEO da empresa, clarificou numa entrevista recente que as saídas de Levy e dos irmãos Duffer estiveram ligadas à vontade de dedicarem mais tempo a longas-metragens, como é o caso do filme "Star Wars: Starfighter" de Levy, que estreará em maio, e do título ainda sem nome dos Duffer, previsto para 2028.
Apesar da redução na lista de criadores associados, a plataforma continua a apostar em certos nomes estabelecidos. O acordo com Guillermo del Toro mantém-se em vigor, e o primeiro filme do universo "Narnia" assinado por Greta Gerwig terá um tratamento de destaque com sete semanas de exclusividade nas salas de cinema. Por seu turno, Rian Johnson encontra-se numa pausa após cumprir o seu contrato de 450 milhões de dólares (cerca de 399,6 milhões de euros) para produzir as duas sequelas de "Knives Out", existindo a possibilidade de regressar. Há ainda uma sequela de "KPop Demon Hunters" em desenvolvimento.
O modelo atual da empresa dá primazia a séries com orçamentos mais baixos, eventos em direto e transmissões desportivas. O formato episódico demonstra maior eficácia a cativar e reter utilizadores de forma contínua. É neste novo contexto que ganham tração formatos como "Squid Game: The Challenge", "Wonka’s The Golden Ticket" e "The New Stanford Prison Experiment", preenchendo o espaço outrora ocupado por produções de elevado prestígio, à semelhança dos trabalhos de terror que Mike Flanagan assinava antes de rumar à Amazon em 2022. Ao adotar opções mais conservadoras e de menor risco, a plataforma prescinde do habitual foco no cinema de autor em troca de estabilidade financeira a longo prazo.







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