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AI sob a bandeira da União Europeia

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, alertou que a inteligência artificial representa ganhos de produtividade para a banca, mas introduz ameaças severas na negociação de mercados, na cibersegurança e na geopolítica, que podem agravar-se mutuamente.

De acordo com o discurso de abertura da conferência anual do Comité Europeu do Risco Sistémico (ESRB), publicado pelo BCE, a líder do banco central sublinhou a necessidade de uma monitorização macroprudencial rigorosa perante a rápida adoção destas ferramentas no setor.

O perigo dos agentes autónomos

A inteligência artificial generativa já está presente no quotidiano financeiro, sendo utilizada por quase nove em cada dez grandes bancos da Zona Euro. Além disso, sete em cada dez empresas cotadas da União Europeia planeiam aumentar o investimento nesta área entre 2025 e 2027. O risco, segundo Lagarde, surge com a delegação de tarefas a agentes de IA, programas que perseguem objetivos com pouca direção humana.

Hoje, apenas 5% dos gestores de ativos dão a estes sistemas autoridade autónoma ou semiautónoma em recomendações e operações, mas a tendência é de crescimento. A presidente do BCE destacou o perigo de desalinhamento, citando estudos em que modelos a atuar como operadores numa empresa fictícia usaram informação privilegiada de forma oculta ou formaram conluios em mercados simulados, criando riscos graves de manipulação e distorção de preços.

Desvantagem cibernética e dependência externa

No panorama da segurança, o ESRB avisou que o tempo entre a descoberta de uma falha e a sua exploração em larga escala pode encolher de semanas para escassas horas. Numa simulação de ataque com 32 passos, os modelos lançados no final de 2025 concluíram um terço das etapas, enquanto as versões mais recentes completaram a totalidade da operação. Lagarde reconheceu que as instituições também usam estas ferramentas para se defenderem, mas têm de testar exaustivamente as correções antes de as aplicar em sistemas essenciais, o que concede aos atacantes uma vantagem no curto e médio prazo.

A concentração do desenvolvimento destas tecnologias na China e nos EUA levanta questões críticas de soberania. Lagarde recordou que, em junho deste ano, uma diretiva norte-americana de controlo de exportações levou um fornecedor a suspender o acesso a dois modelos avançados, resultando num corte abrupto para o continente europeu. Embora o episódio não tenha causado perturbações financeiras visíveis, evidenciou a vulnerabilidade da Europa, que necessita de desenvolver capacidades próprias e integrar a cadeia de abastecimento global para não depender de controlos externos.

Paralelo com a Guerra Fria

Para mitigar estas ameaças sistémicas, Lagarde pediu às autoridades que antecipem os perigos e fortaleçam a coordenação. O comité recomendou a revisão e atualização imediata das defesas cibernéticas das infraestruturas críticas e exigiu planeamento ativo por parte das empresas para evitar a propagação de ataques pelo setor.

A nível global, a presidente do BCE traçou um paralelo com os limites impostos aos arsenais nucleares entre os Estados Unidos e a União Soviética durante a Guerra Fria. Lagarde alertou que uma postura norte-americana de recusa de acordos globais de segurança, focada apenas em manter a liderança tecnológica atual, seria uma visão de vistas curtas e apelou a um esforço conjunto de cooperação internacional que complemente o atual Regulamento da IA da União Europeia.

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