
O debate sobre a utilização de inteligência artificial generativa na criação de videojogos continua acesso e, desta vez, é uma das vozes mais icónicas da indústria a tomar uma posição firme. Goichi Suda, mais conhecido como Suda51, diretor do estúdio Grasshopper Manufacture, revelou que o seu próximo título, Romeo is a Dead Man, será totalmente livre de IA generativa.
Em entrevista à Eurogamer, o criador explicou que esta decisão não se prende apenas com uma preferência artística pessoal, mas também com diretrizes vindas de cima. Segundo Suda51, a NetEase, editora responsável pelo jogo, terá instruído os seus estúdios a não utilizarem esta tecnologia, uma postura que contrasta com a tendência atual de muitas gigantes tecnológicas.
A "estranheza" da inteligência artificial
Para o veterano da indústria, a recusa em adotar a IA vai muito além das regras corporativas. Suda51 descreve o conteúdo gerado por inteligência artificial como tendo algo de "estranho" e artificial, incapaz de replicar a profundidade emocional e a empatia que um ser humano imprime na sua obra.
Na sua visão, os jogadores conseguem perceber intuitivamente quando o esforço humano, a paixão e as habilidades manuais — seja na arte, nos efeitos ou na construção visual — estão presentes. O recurso à automação criativa resultaria, segundo o diretor, em personagens rasos e numa dificuldade acrescida em criar uma conexão verdadeira com o público.
O criador adiantou ainda que a editora chegou a ter um departamento dedicado à investigação de IA generativa, mas que este terá sido encerrado. Suda especula que a decisão poderá estar relacionada com o receio de problemas de direitos autorais ou com a crescente rejeição dos jogadores a conteúdos gerados por algoritmos, embora admita que os motivos oficiais nunca foram totalmente esclarecidos internamente.
Um mercado dividido e com dúvidas
A postura cautelosa relatada por Suda51 surge num momento em que a indústria tecnológica enfrenta um "banho de realidade" quanto à IA. Apesar da pressão de grandes empresas para tornar a tecnologia indispensável, multiplicam-se os casos de produtos mal recebidos e dúvidas sobre a sustentabilidade financeira.
Recentemente, a NVIDIA viu-se envolvida em incertezas sobre investimentos na OpenAI, e analistas apontam que a criadora do ChatGPT poderá enfrentar desafios financeiros graves até 2027 se não encontrar um modelo de lucro sustentável. Até a Microsoft, uma das maiores impulsionadoras da tecnologia, tem revisto as suas estratégias, com relatos de uma reformulação no Windows 11 e a redução de recursos de IA considerados excessivos após resultados fiscais mistos.
Também a Larian Studios, criadora de Baldur's Gate 3, protagonizou uma polémica recente quando o seu CEO, Swen Vincke, admitiu o uso de IA em fases iniciais de desenvolvimento, recuando posteriormente para limitar o uso da ferramenta apenas a apoio interno, longe das artes finais e diálogos.
NetEase desmente proibição total
Apesar das afirmações categóricas de Suda51, a situação dentro da editora parece ser mais complexa. Um representante da empresa esclareceu que não existe uma proibição generalizada ao uso de inteligência artificial. Pelo contrário, a companhia planeia inclusive abordar o tema em palestras previstas para a GDC 2026.
A editora sublinha que vários dos seus títulos continuam a utilizar a tecnologia de forma ativa, dando como exemplo Where Winds Meet. Neste jogo, a IA é usada em sistemas menos visíveis para o jogador, como o reconhecimento facial, a criação de rostos a partir de fotografias e o comportamento dinâmico de NPCs.
Esta contradição sugere que, enquanto alguns criadores como Suda51 optam por um caminho puramente artesanal, a indústria continua a tentar encontrar o equilíbrio entre a eficiência da automação e a "alma" que só os humanos conseguem dar aos jogos.












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