
A IA deixou de ser apenas uma curiosidade tecnológica para se tornar numa presença constante no quotidiano dos mais jovens, influenciando a forma como constroem a sua própria identidade. No entanto, um novo relatório intitulado “A miragem da IA, um reflexo incómodo com alto impacto nos jovens” revela dados preocupantes sobre como estes sistemas estão a perpetuar e a amplificar estereótipos de género.
O estudo, desenvolvido pela consultora internacional LLYC, analisou cerca de 9.600 recomendações geradas por cinco dos modelos de linguagem mais populares da atualidade, incluindo o Gemini, ChatGPT e Grok. Os resultados indicam que, em 56% das respostas analisadas, as utilizadoras jovens são classificadas como frágeis ou fracas, uma rotulagem que as coloca sistematicamente numa posição de vulnerabilidade perante a tecnologia.
A inteligência artificial como uma "amiga tóxica"
A relação dos adolescentes com os chatbots atingiu um patamar em que muitos admitem sentir mais satisfação a falar com uma máquina do que com amigos reais. O problema reside no facto de esta interação não ser neutra. De acordo com o documento da LLYC, a inteligência artificial tende a agir como uma espécie de amiga tóxica digital quando interage com mulheres, adotando um tom de amizade com uma frequência muito superior à que utiliza com os homens.
Além disso, a forma como o aconselhamento é prestado difere drasticamente consoante o género do utilizador. Enquanto para os rapazes a linguagem é direta e focada na ação, para as raparigas a máquina personifica-se com expressões empáticas, como "eu entendo-te", priorizando a validação emocional em vez de fornecer soluções técnicas ou práticas. Este comportamento acaba por incentivar a que as mulheres procurem aprovação externa seis vezes mais do que os homens para se sentirem validadas.
Segregação profissional e estética alimentada pelo algoritmo
O impacto deste enviesamento estende-se às ambições futuras e à perceção do corpo. O algoritmo projeta uma segregação laboral precoce ao redirecionar as vocações femininas maioritariamente para as áreas das ciências sociais e da saúde. Em contraste, os jovens do sexo masculino são incentivados a seguir carreiras em engenharia, liderança e resolução de problemas complexos.
Mesmo na esfera pessoal e estética, a tendência mantém-se. Perante inseguranças, a inteligência artificial responde com conselhos de moda e estética quase 50% mais vezes às mulheres. Já para os homens, a recomendação para ir ao ginásio é duas vezes mais comum como forma de superar problemas emocionais ou ruturas.
Esta realidade não é um erro exclusivo da programação, mas sim um reflexo de preconceitos históricos que a tecnologia acaba por validar e eternizar. Conforme detalhado no relatório da LLYC, se a realidade social não for questionada, as máquinas continuarão a legitimar papéis tradicionais e a criar obstáculos invisíveis que limitam a autonomia e o futuro da próxima geração.












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