
Arquivar informação digital com total segurança deixou de estar dependente de fitas magnéticas ou discos rígidos que se degradam facilmente numa década. Uma nova tecnologia baseada em vidro consegue guardar o equivalente a dois milhões de livros numa pequena placa, preservando o conteúdo intacto por milénios sem qualquer risco físico.
A inovação integra o projeto Silica, detalhado pela Microsoft num estudo recentemente publicado na revista científica Nature. Esta demonstração marca a primeira vez que um sistema de arquivo neste material reúne todas as etapas práticas necessárias para uso comercial, cruzando a codificação, a escrita, a leitura e a correção imediata de erros.
A equipa de investigadores focou-se na utilização de vidro de borossilicato — o mesmo material barato e resistente a choques térmicos que compõe os equipamentos de laboratório e as portas dos fornos domésticos em Portugal. Numa única placa com 120 milímetros por 120 milímetros e 2 milímetros de espessura, a infraestrutura consegue acondicionar até 4,8 terabytes de informação, distribuindo os ficheiros ao longo de 301 camadas internas.
O conceito de voxel e os pulsos ultracurtos
A operação de gravação recorre a impulsos laser com uma duração na ordem dos femtossegundos (10−15 segundos). Esta energia imensa e quase instantânea incide num ponto muito específico do vidro transparente, alterando a sua estrutura molecular sem quebrar ou derreter a zona em redor. O resultado gerado é um "voxel" — a tradução tridimensional do tradicional píxel —, abrindo portas a que a informação ocupe todo o volume do material em vez de ficar refém apenas da superfície plana.
As bases científicas remontam às experiências precursoras de Eric Mazur na Universidade de Harvard durante os anos 90, e ao modelo duradouro apresentado por Peter Kazansky na Universidade de Southampton em 2014. A grande rutura da atual plataforma da Microsoft passa pela simplificação total do hardware de base. O mecanismo de descodificação exige agora a presença de apenas uma câmara de leitura, baixando drasticamente as exigências espaciais e orçamentais da tecnologia.
Duas vias para eternizar o conhecimento
Os responsáveis apresentaram duas abordagens distintas para marcar definitivamente o vidro. A primeira recorre a microexplosões para desenhar estruturas muito finas e vazias no material, garantindo um volume de armazenamento de 1,59 gigabits por milímetro cúbico.
O segundo método testado prescinde das cavidades e aposta antes em alterar o índice de refração local, modificando especificamente a forma como a luz viaja por cada ponto. Esta técnica alternativa reduz os custos energéticos e é inerentemente mais ágil, registando velocidades de 65,9 megabits por segundo ao empregar múltiplos feixes luminosos paralelos. No estado atual da máquina, cada feixe individual alcança um pico de 25,6 megabits por segundo, um limite imposto sobretudo pela cadência de disparo do próprio laser.
Testes intensivos de envelhecimento acelerado, expondo as placas a temperaturas e condições agrestes, serviram para simular a prova do tempo sobre o borossilicato. As conclusões confirmam que os dados mantêm a sua integridade muito para lá da marca dos 10 000 anos. Para instituições de investigação e governos, este formato elimina a necessidade logística de gastar verbas constantes em discos mecânicos e migrações preventivas para arquivar o património cultural da humanidade.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!