
A ascensão da inteligência artificial generativa não é a causa da crise atual nas instituições de ensino superior, mas serviu como o catalisador que deixou a descoberto um problema antigo. De acordo com um artigo de opinião publicado na revista Fortune, a valorização cega de um certificado em detrimento da verdadeira aquisição de conhecimento é o principal desafio que as academias enfrentam hoje.
O texto, assinado por Jason Benedict, vice-presidente assistente de Tecnologia da Informação e diretor de Segurança da Informação da Universidade Fordham, argumenta que a preocupação não deve centrar-se apenas em travar a fraude académica. O objetivo vital passa por recuperar a educação como um espaço de autêntica formação intelectual. Para os leitores em Portugal, onde a inflação de habilitações e a pressão pela empregabilidade transformaram muitas vezes o percurso académico numa mera corrida ao canudo, esta reflexão ganha contornos particularmente familiares e demonstra uma tendência sentida no mercado europeu.
A ilusão do diploma em vez da aprendizagem
O aumento dos custos de ensino e a exigência do mercado de trabalho alteraram a forma como muitos estudantes olham para as universidades. Segundo o especialista, o processo tornou-se transacional. A obtenção do grau académico deixou de ser o resultado natural de um percurso de dedicação para se tornar o objetivo único, ofuscando o desenvolvimento da curiosidade.
A perspetiva apoia-se na Teoria da Autodeterminação dos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan. Os dados mostram que os alunos motivados pelo interesse genuíno têm um envolvimento muito superior. Em contraste, aqueles que procuram apenas boas notas, perspetivas salariais ou mero estatuto apresentam maior tendência para adotar estratégias de estudo superficiais, recorrendo com facilidade à desonestidade para atingir os seus fins. Um estudo publicado em 2024 confirma que a motivação intrínseca gera níveis mais elevados de participação e confiança nos alunos.
Avaliações obsoletas na era da automação
A rápida adoção de ferramentas capazes de gerar respostas expôs as profundas fragilidades dos métodos de exame clássicos. O dirigente da Universidade Fordham refere que grande parte dos modelos de avaliação continua a valorizar exclusivamente o resultado final, ignorando o processo de construção do saber.
As tarefas que não exigem pensamento crítico, criatividade ou argumentação sólida são agora executadas rapidamente por sistemas automatizados. Esta realidade demonstra as limitações de um sistema educativo que ainda desenha avaliações baseadas em moldes da era industrial.
Os impactos desta lógica extravasam as portas das academias. O artigo apoia-se em estudos sobre ética profissional para traçar uma correlação entre a desonestidade enquanto estudante e as práticas antiéticas na vida adulta. Em áreas críticas como a medicina, engenharia, direito, finanças e segurança cibernética, as decisões assentes em lacunas de conhecimento podem provocar sérios prejuízos à sociedade.
Jason Benedict ressalva que as próprias instituições de ensino reforçaram a transformação da educação num produto ao focarem a sua gestão em métricas como as matrículas e as taxas de empregabilidade. A alternativa proposta passa por repensar os métodos de avaliação, privilegiando a resolução de problemas reais, as apresentações orais e o trabalho de equipa, ou seja, atividades difíceis de transferir para o meio tecnológico. A meta para a próxima década não reside em vigiar a fraude, mas sim em reconstruir uma cultura onde o ato de aprender volte a ser encarado como algo essencial.












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