
O ecossistema de conectividade em Portugal acaba de receber um reforço de peso. A Google concretizou a amarração do seu novo cabo submarino Nuvem em Sines, estabelecendo uma ligação direta inédita entre a costa leste dos EUA e o território português. Com entrada em funcionamento projetada para 2027, a infraestrutura foi apresentada no Oceanário de Lisboa e promete consolidar o país como um nó crítico no tráfego de dados transatlântico.
Uma artéria digital de 6.900 quilómetros
O sistema Nuvem parte de Myrtle Beach, na Carolina do Sul, atravessa as Bermudas e a ilha açoriana de São Miguel, e termina a sua viagem na costa alentejana. O processo de amarração no continente contou com a parceria técnica da Meo. Ao longo dos seus 6.900 quilómetros de extensão, o cabo integra 16 pares de fibras óticas, cada um capaz de suportar um débito de 24 terabits por segundo (Tbps). A capacidade agregada atinge os 384 Tbps, um salto técnico focado em dar resposta à procura crescente por serviços cloud e plataformas de inteligência artificial.
Este projeto sucede ao cabo Equiano, ativado em 2022, e integra uma rede mais vasta que continuará a crescer. Já está nos planos a instalação do sistema complementar Sol, também previsto para 2027, que ligará a Florida a Espanha, cruzando novamente as Bermudas e os Açores.
Segurança nacional e investimento recorde
A dimensão geopolítica dominou a apresentação oficial. John Arrigo, embaixador norte-americano em Portugal, revelou que o investimento tecnológico do seu país em território nacional poderá ultrapassar os 40 mil milhões de dólares (cerca de 36,6 mil milhões de euros) até 2031. Segundo o diplomata, este volume de capital fará de Portugal "a maior concentração de investimento em infraestrutura de inteligência artificial americana em toda a Europa".
A segurança das comunicações foi outro ponto central, com Arrigo a lembrar que estas estruturas transportam mais de 95% do tráfego mundial de dados e são essenciais para a partilha de informação na NATO. "Cada novo cabo de confiança que chega à costa portuguesa é um cabo que deixa de chegar a outro local menos fiável", alertou, sublinhando a necessidade de manter fornecedores de risco fora das cadeias de abastecimento críticas.
O eixo dos Açores e a infraestrutura do Estado
O traçado do Nuvem confere um protagonismo reforçado ao arquipélago dos Açores, onde a empresa prevê instalar um novo centro de dados. José Manuel Bolieiro, presidente do Governo Regional, assinalou que as ilhas abandonam a função de simples "ponte" para assumirem o estatuto de "uma sala de controlo" na nova economia. O governante aproveitou o momento para pressionar a renovação do Anel CAM — a rede estatal que liga o continente aos Açores e à Madeira — alertando que o atual sistema já atingiu o fim da sua vida útil e que "está na hora de os substituir e fazer um upgrade".
No plano económico mais amplo, a tecnológica norte-americana estima que o projeto gere um impacto direto de 500 milhões de euros para Portugal. Presente na cerimónia, Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, associou a captação destas infraestruturas ao esforço em tornar a administração "mais rápida, mais simples e mais previsível", garantindo que as novas rotas trazem a resiliência necessária para proteger serviços essenciais, como a banca e os hospitais, contra eventuais falhas à escala global.












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