
A inteligência artificial prometeu revolucionar a produtividade e devolver tempo aos profissionais, mas a realidade dentro das empresas que desenvolvem esta tecnologia revela um cenário oposto. Segundo um estudo divulgado pela UC Berkeley e testemunhos recolhidos por uma investigação da BBC, as equipas em gigantes como a OpenAI, Anthropic, Meta e Google enfrentam jornadas intermináveis, com picos de trabalho que podem ultrapassar as 90 horas em apenas sete dias.
O paradoxo da semana de 32 horas
O contraste é particularmente notório no caso da OpenAI. Em abril de 2026, a empresa sugeriu implementar semanas de 32 horas divididas em quatro dias, mantendo o salário inalterado, com o objetivo de usar os ganhos de eficiência da IA a favor do bem-estar das suas equipas. O documento interno propunha mesmo travar usos da tecnologia que pudessem gerar sobrecarga de trabalho.
Os relatos de ex-funcionários mostram uma realidade bastante mais exigente, pautada por reuniões de crise e avaliações de desempenho agressivas. Um antigo técnico, que abandonou a estrutura em 2025, revelou que ultrapassava regularmente as 70 horas semanais, sendo forçado a entrar ao fim de semana apenas para garantir que os sistemas não colapsavam. Atualmente a trabalhar numa outra startup do mesmo setor, o profissional considera que cumprir entre 50 e 60 horas é um alívio. Nos períodos críticos, vários funcionários da Anthropic e da criadora do ChatGPT relataram maratonas de 90 horas numa única semana, o que se traduz em quase 13 horas diárias, mesmo sem folgas.
Mudanças forçadas e falhas nos sistemas
A pressão estende-se a outros pesos pesados da indústria tecnológica. Na Meta, antigos e atuais engenheiros descrevem transferências compulsivas para os departamentos de IA. Segundo os mesmos, os profissionais são simplesmente movidos para os novos projetos, sem margem de recusa, restando a demissão como a única alternativa possível. Trabalhar à noite, ao fim de semana e manter uma disponibilidade permanente passou a fazer parte das exigências da função.
Na Google, a corrida pela liderança neste segmento causou efeitos paralelos. O antigo funcionário Amin Shali, que abandonou a gigante das pesquisas em maio, explicou que o desvio de recursos de armazenamento e processamento para a IA originou instabilidade nos sistemas internos. Esta situação obrigou os engenheiros a corrigir falhas durante a madrugada. Shali notou uma clara melhoria na sua saúde e nos níveis de descanso logo após deixar o cargo.
Maior eficiência significa mais tarefas
O fenómeno não atinge apenas as corporações de topo. O estudo da UC Berkeley, que acompanhou uma tecnológica de 200 pessoas durante oito meses e incluiu mais de 40 entrevistas detalhadas, expôs o centro do problema. Embora a IA efetivamente reduza o tempo necessário para executar tarefas pontuais, essa poupança não se traduz em mais descanso.
A capacidade de manter múltiplos processos em simultâneo eliminou as pausas naturais e multiplicou o número de projetos assumidos pelos trabalhadores. Para o mercado português, onde a adoção destas ferramentas começa a generalizar-se entre empresas de todas as dimensões, este cenário serve de aviso: sem uma alteração clara na cultura de gestão, o tempo poupado por um modelo automatizado é imediatamente preenchido com mais volume de trabalho.












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