
A temporada de gripe deste ano está a revelar-se particularmente severa, com um aumento significativo de casos nos Estados Unidos e no Reino Unido, levantando preocupações sobre a agressividade do vírus neste inverno. As autoridades de saúde norte-americanas já classificaram a temporada de 2024-25 como a mais grave desde 2017-18, enquanto no Reino Unido a propagação começou mais cedo do que em qualquer momento das últimas duas décadas.
Este cenário levou alguns meios de comunicação a adotar o termo "super gripe". No entanto, e segundo esclarece a Wired, esta não é uma designação médica oficial, mas sim uma referência a uma nova variante específica: o subclado K da influenza A H3N2.
O que distingue a variante "Subclado K"?
A grande diferença desta variante reside na sua estrutura biológica. O vírus apresenta múltiplas mutações numa proteína da sua superfície, chamada hemaglutinina. Estas alterações tornam-no "antigenicamente diferente" das variantes utilizadas para desenvolver as vacinas atuais.
Em termos práticos, isto significa que o vírus consegue, parcialmente, contornar a imunidade que as pessoas adquiriram através de infeções anteriores ou da vacinação. Como resultado, a população torna-se mais suscetível à infeção. A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido revelou que 87% dos vírus H3N2 detetados desde o final de agosto de 2025 pertencem a este novo subclado K.
Apesar do nome assustador, esta variante não é necessariamente mais mortífera. A estirpe H3N2 já é historicamente conhecida por causar doenças graves em idosos e crianças, e esta nova mutação mantém esse perfil de risco, sem um aumento intrínseco na sua letalidade. O termo "super" refere-se mais à sua capacidade de evasão e propagação do que à gravidade dos sintomas individuais.
Uma temporada antecipada e a "dívida de imunidade"
Um dos fatores mais atípicos deste ano é a precocidade do surto. No Japão, onde o pico ocorre habitualmente entre dezembro e fevereiro, a epidemia começou a sério no final de setembro de 2025. Dados locais indicam que, de 23 estirpes analisadas nesse período inicial, 22 correspondiam ao subclado K.

Os especialistas apontam para uma combinação de fatores para explicar este fenómeno. Por um lado, existe um declínio na imunidade da população, uma consequência indireta das medidas de prevenção contra a Covid-19 que, durante três anos, suprimiram largamente a circulação do vírus da gripe. Por outro lado, o desgaste físico provocado pelas ondas de calor recorde pode ter deixado a população mais vulnerável.
As vacinas continuam a ser eficazes?
Esta é a questão central para muitos utilizadores. A vacina desenvolvida para a temporada 2025-26 baseia-se na linhagem convencional J.2, que possui uma antigenicidade diferente do subclado K que está a circular.
No entanto, os dados preliminares trazem boas notícias. Informações recolhidas no Reino Unido confirmam que a vacinação continua a ser uma ferramenta poderosa: 70% a 75% das crianças vacinadas e 30% a 40% dos adultos não necessitaram de recorrer às urgências ou de hospitalização após a infeção. Isto demonstra que, mesmo que a vacina não seja uma correspondência perfeita para prevenir a infeção, mantém uma eficácia elevada na prevenção de doença grave.
Cuidados a ter e tratamento
As medidas de prevenção mantêm-se inalteradas: a vacinação é recomendada, especialmente para grupos de risco como idosos, grávidas e crianças pequenas. No dia a dia, a higiene das mãos, o uso de máscara em multidões e a ventilação dos espaços continuam a ser barreiras eficazes contra a propagação viral.
Caso surjam sintomas, a recomendação médica é aguardar pelo menos 12 horas após o início da febre antes de visitar uma instituição médica, para garantir um diagnóstico preciso. Os medicamentos antivirais, como o Xofluza e o Tamiflu, são considerados eficazes contra esta estirpe, mas devem ser tomados nas primeiras 48 horas após o aparecimento dos sintomas para garantirem o melhor resultado.
Em suma, embora a "super gripe" soe alarmante, trata-se de uma extensão da gripe tradicional num contexto de imunidade reduzida. A resposta deve passar pela prevenção e informação científica, e não pelo pânico.