
Mais de mil trabalhadores no Quénia foram abruptamente atirados para o desemprego por uma empresa de subcontratação, após a perda de um importante contrato com a dona do Facebook e Instagram. Segundo avançou o The Guardian, a decisão expõe a precariedade dos empregos tecnológicos no sul global e surge na sequência de graves polémicas envolvendo as políticas de privacidade nos óculos inteligentes da gigante tecnológica norte-americana.
A Sama, uma empresa sediada em Nairobi, geria operações de moderação de conteúdos e rotulagem de dados para o treino de modelos de inteligência artificial. O anúncio dos despedimentos foi feito na quinta-feira, deixando os funcionários numa posição delicada com apenas seis dias de pré-aviso para abandonar os seus postos de trabalho.
O escândalo da privacidade nos óculos inteligentes
O ponto de rutura desta parceria ocorreu no mês passado, quando surgiram relatos perturbadores sobre o tipo de trabalho exigido aos funcionários quenianos. Vários trabalhadores responsáveis pela anotação de dados reportaram ter sido forçados a visualizar conteúdos captados pelos óculos inteligentes Ray-Ban, frequentemente usados pelo diretor-executivo Mark Zuckerberg. As imagens mostravam utilizadores em situações de extrema intimidade, incluindo momentos na casa de banho ou a ter relações sexuais.
A Meta justificou o fim definitivo da parceria afirmando que a Sama deixou de cumprir os padrões exigidos pela marca. Em comunicado, a empresa sublinhou que fotos e vídeos são privados para os utilizadores e que a revisão humana de conteúdos gerados por inteligência artificial visa apenas melhorar o desempenho do produto, garantindo sempre que existe um consentimento claro.
Reações e o impacto na indústria da moderação
Do lado da Sama, a defesa centrou-se no seu papel como entidade corporativa responsável. A empresa garantiu estar a apoiar os funcionários afetados com cuidado e respeito, sublinhando que paga salários dignos e oferece amplos benefícios médicos e aconselhamento psicológico nas suas instalações. No entanto, o histórico recente conta uma história diferente: num processo judicial de 2024, cerca de 140 moderadores de conteúdo acusaram a empresa de os expor a conteúdos online terríveis, resultando em diagnósticos severos de stress pós-traumático, depressão e ansiedade.
O Oversight Lab, uma organização dedicada à regulamentação justa da tecnologia em África, classificou a onda de despedimentos como devastadora. A entidade, que está já a aconselhar os trabalhadores sobre as suas opções legais, alertou que estas estratégias económicas prejudicam as populações mais jovens e impedem uma participação justa do país no ecossistema tecnológico global.
Kauna Malgwi, uma antiga funcionária da Sama, resumiu a situação ao afirmar que a assimetria de poder beneficia sempre as grandes empresas tecnológicas. O risco destas operações flui invariavelmente de cima para baixo, afetando de forma severa os trabalhadores subcontratados que têm os níveis mais baixos de proteção laboral.
A juntar a este clima de tensão no setor tecnológico, e num caso paralelo, um júri de Los Angeles determinou no mês passado que o Instagram e o YouTube da Google conceberam deliberadamente produtos sociais viciantes, resultando em danos diretos para uma utilizadora jovem.












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