
A Uber transformou radicalmente a sua estratégia de mobilidade ao longo dos últimos dois anos. Depois de ter abandonado o desenvolvimento interno de tecnologia de condução autónoma, a empresa liderada por Dara Khosrowshahi teceu uma teia global de alianças, investindo e aliando-se a mais de 30 empresas do setor dos veículos autónomos (AV). O objetivo é claro: converter a sua aplicação numa plataforma agnóstica onde qualquer frota de robotaxis ou robôs de entrega possa operar à escala mundial.
O renascer de uma ambição antiga
A relação da tecnológica com os veículos sem condutor não é nova, mas o formato atual é completamente diferente do plano original. Em 2014, sob a direção de Travis Kalanick, a empresa criou a Uber Advanced Technologies Group (ATG) para criar o seu próprio sistema condução autónoma. Essa divisão cresceu com a contratação de investigadores de topo e com a aquisição da Otto, uma tecnológica de camiões autónomos.
No entanto, o programa acabou por colapsar devido a três momentos críticos: um processo judicial da Waymo por roubo de segredos comerciais, a demissão do próprio Kalanick em 2017 e um acidente mortal no Arizona em 2018, no qual um Volvo XC90 em modo autónomo atropelou mortalmente uma pedestre.
Em 2020, num esforço de reestruturação focado no negócio principal de viagens e entregas com motoristas humanos, a Uber desfez-se dos seus projetos mais ambiciosos. A divisão ATG foi vendida à Aurora, a Jump passou para a Lime e a Elevate foi entregue à Joby Aviation, embora a Uber tenha salvaguardado participações financeiras em todas elas.
Apenas dois anos depois, a empresa começou a desenhar o seu regresso aos bastidores do setor, um movimento que ganhou uma tração sem precedentes.
Alianças estratégicas e expansão internacional
Atualmente, o leque de parceiros da plataforma estende-se por múltiplos continentes e especializações, dividindo-se entre transporte de passageiros, entregas urbanas e logística pesada.
O ecossistema de robotaxis
Na Europa, a Uber uniu forças com a Autobrains e planeia lançar um programa de robotaxis em Munique. Os veículos vão utilizar um sistema de inteligência artificial assente na plataforma Drive Hyperion da Nvidia. Outro pilar fundamental na região é a Avomo (anteriormente Moove Cars), na qual a Uber detém uma posição de 30% desde 2021. A Avomo gerencia frotas em Madrid — em parceria com a WeRide — e apoia a operação conjunta com a Waymo em Austin, nos Estados Unidos.
A nível global, a Stellantis e a Wayve firmaram um acordo tripartido com a Uber para criar e colocar nas estradas da Europa e da América do Norte veículos equipados com tecnologia autónoma. Em paralelo, a empresa fechou um negócio com a Rivian avaliado em até 1,25 mil milhões de dólares, que prevê a compra de 10.000 SUV R2 elétricos e autónomos até 2028.
Na Ásia e no Médio Oriente, a cooperação com a gigante chinesa Baidu prevê a integração de milhares de veículos Apollo Go fora da China, tendo já planos de expansão para cidades como o Dubai. A WeRide também se destaca como um dos parceiros mais prolíficos, operando de forma totalmente autónoma em Abu Dhabi e expandindo o serviço a 15 novas cidades até 2030, incluindo Madrid e Zurique, apoiada por um reforço de investimento de 100 milhões de dólares por parte da Uber.
Nos Estados Unidos, o serviço premium de robotaxis vai contar com os SUV Lucid Gravity equipados com o sistema da Nuro, num compromisso financeiro que ronda os 500 milhões de dólares. Os testes na app contam ainda com a May Mobility no Texas e com os veículos da Zoox (propriedade da Amazon) em Las Vegas. Noutras frentes, a Mercedes-Benz colabora num ecossistema com sedãs Classe S, enquanto a MOIA (subsidiária da Volkswagen) planeia introduzir carrinhas ID. Buzz autónomas a partir de 2027.
Logística e entregas de proximidade
No segmento de transporte de mercadorias de longo curso, a Uber Freight mantém colaborações de peso com a Aurora Innovation e com a VAS (Volvo Autonomous Solutions), realizando transportes regulares de carga com camiões autónomos em rotas no Texas. Na área de dados e análise de padrões de tráfego, a empresa colabora estreitamente com a Torc Robotics.
Para as entregas de refeições da marca Uber Eats, a operação no solo é assegurada por pequenos robôs de calçada desenvolvidos pela Avride (uma dissidência da Yandex investida em 375 milhões de dólares), pela Cartken (com operações em Miami, Fairfax e Osaca) e pela Coco. A Serve Robotics, que nasceu como uma divisão da Postmates antes de ser autonomizada e cotada em bolsa, continua a efetuar entregas nos Estados Unidos. No ar, a Flytrex assegura a distribuição de encomendas através de drones comerciais.












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