
Os centros de dados absorvem atualmente cerca de 90% de todo o volume de negócios da NVIDIA, relegando a divisão de videojogos para uma fatia de apenas 7,4% das receitas totais da empresa. Esta mudança estrutural nas contas da tecnológica norte-americana ocorre num período em que a venda de hardware para jogadores quase quadruplicou em valor absoluto, mas acabou por ser completamente eclipsada pela procura massiva por infraestruturas de inteligência artificial.
Os números apurados a partir dos relatórios financeiros oficiais, que detalham uma análise partilhada originalmente por WhiskeyHacker na rede social X, demonstram a transformação radical do modelo de negócio da fabricante ao longo da última década. No ano fiscal de 2026 (FY2026), encerrado a 25 de janeiro de 2026, a empresa atingiu uma faturação global de 215.938 milhões de dólares (cerca de 198.660 milhões de euros à taxa de câmbio atual). Deste montante, a área de Data Center gerou 193.737 milhões de dólares, um valor cerca de doze vezes superior aos 16.042 milhões de dólares registados pelo segmento de Gaming.
A inversão histórica entre placas gráficas de consumo e servidores de IA
Durante vários anos, o mercado de videojogos funcionou como o verdadeiro motor financeiro da marca. No exercício fiscal de 2017 (FY2017), a área de Gaming representava 58,8% de todo o capital que entrava na empresa, somando 4.060 milhões de dólares num universo total de 6.910 milhões, enquanto os centros de dados ficavam-se pelos 830 milhões de dólares. Nos anos seguintes, o segmento dedicado aos jogadores continuou a expandir-se para 5.513 milhões em FY2018 (56,8% do total) e 6.246 milhões em FY2019 (53,3%), tendo sofrido um ligeiro recuo em FY2020 para 5.518 milhões, altura em que ainda garantia metade das receitas (50,5%) face aos 2.983 milhões do setor empresarial.

A aproximação entre as duas divisões começou a desenhar-se em FY2021, quando o Gaming subiu para 7.759 milhões de dólares (46,5% de quota interna) e os centros de dados mais do que duplicaram para 6.696 milhões. Mesmo no ano fiscal de 2022 (FY2022), quando a procura por placas gráficas levou a divisão de videojogos a faturar 12.462 milhões de dólares num bolo total de 26.914 milhões, a sua representatividade manteve-se nos 46,3%, acompanhada de perto pelos 10.613 milhões dos servidores.
O ponto de viragem definitivo aconteceu no exercício de 2023 (FY2023). Nesse período, a receita proveniente do segmento de jogos desceu para 9.067 milhões de dólares (33,6% da faturação total de 26.974 milhões) e foi ultrapassada pela área de Data Center, que alcançou os 15.005 milhões de dólares. Estes sistemas de centro de dados integram aceleradores de hardware desenhados especificamente para o treino e execução de modelos de machine learning e deep learning em larga escala, permitindo processar volumes gigantescos de dados em simultâneo nos servidores de cloud.
A partir desse momento, o crescimento da computação dedicada à inteligência artificial acelerou de forma exponencial. Em FY2024, a faturação total subiu para 60.922 milhões de dólares, impulsionada pelos 47.525 milhões gerados pelos centros de dados, o que reduziu o peso dos 10.447 milhões do Gaming para apenas 17,1%. Essa tendência acentuou-se em FY2025, com as receitas globais a atingirem 130.497 milhões de dólares (115.186 milhões oriundos de Data Center e 11.350 milhões de Gaming, equivalente a uma quota de 8,7%), culminando nos resultados de FY2026 onde, apesar de a divisão de jogos ter crescido 41% num único ano para atingir um recorde de 16.042 milhões de dólares, a sua fatia recuou para os 7,4%.
O impacto prático no mercado de placas gráficas GeForce
A comparação direta entre as pontas desta janela de dez anos ilustra a disparidade de crescimento entre os dois setores. Entre o ano fiscal de 2017 e o de 2026, a divisão de Gaming multiplicou as suas receitas por 3,95 vezes, um desempenho comercial expressivo em termos isolados. No mesmo intervalo temporal, o negócio de centros de dados multiplicou a sua faturação por 233 vezes.
Estes valores referem-se exclusivamente ao volume financeiro faturado e não ao número absoluto de unidades físicas enviadas para as lojas. A contabilidade da divisão de Gaming engloba também outras fontes de receita para além das tradicionais placas gráficas GeForce para computadores pessoais, incluindo o fornecimento de processadores personalizados para consolas de videojogos e serviços de streaming na cloud como o GeForce NOW.
Embora a perda de peso percentual no balanço financeiro não confirme cortes diretos nas linhas de produção nem o abandono do setor de consumo, os consumidores que sustentavam a maioria das vendas há uma década representam agora apenas cerca de 7 em cada 100 dólares faturados pela fabricante. Esta alteração de prioridades financeiras reflete-se nas atuais políticas de distribuição de componentes e na fixação de preços praticadas pela marca nas gamas mais altas do mercado de placas gráficas.







Nenhum comentário
Seja o primeiro!