
A Apple prepara-se para agitar uma das divisões que em tempos foi a grande coroa de glória da empresa: a área de design de produtos. Segundo a Bloomberg, John Ternus, que assume o cargo de diretor executivo no dia 1 de setembro, tem nos seus planos uma reformulação total desta equipa ainda antes de assumir o controlo oficial. O diagnóstico atual é pesado, com a área a registar o nível mais baixo de influência e peso interno das últimas décadas.
Longe vão os dias em que o design ditava as regras de cada novo equipamento. O relatório aponta que a divisão se transformou num simples prestador de serviços interno, onde os restantes departamentos encomendam o que precisam sem grande debate, tendo a equipa perdido o seu assento de relevo na mesa dos executivos.
O declínio de uma era de ouro no design
A erosão deste departamento começou a notar-se de forma mais acentuada há cerca de dez anos. Em 2015, Jony Ive afastou-se da gestão diária e, em 2019, abandonou definitivamente a tecnológica de Cupertino para fundar a LoveFrom. Durante algum tempo, Evans Hankey tentou manter o barco a flutuar, mas a empresa nunca lhe concedeu um lugar na equipa executiva, obrigando-a a reportar a Jeff Williams, o diretor de operações que não tinha qualquer experiência na área. Esta decisão demonstrou claramente a mudança de prioridades durante a gestão de Tim Cook, trocando a criatividade pelo foco na cadeia de fornecimento.
Quando Hankey saiu em 2022, seguiu-se uma autêntica debandada de talentos. Quase todos os profissionais da era de Ive transitaram para a LoveFrom ou criaram os seus próprios projetos. Curiosamente, a io, uma empresa fundada por Hankey e Ive, acabou por ser comprada pela OpenAI em 2025 por impressionantes 6,5 mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de 6,1 mil milhões de euros. Isto significa que os talentos perdidos estão agora a desenhar o hardware de uma das maiores rivais no campo da inteligência artificial.
Após a reforma de Williams em novembro de 2025, Molly Anderson, conhecida pelo seu trabalho no Apple Watch, assumiu a liderança do design industrial em março de 2026. Contudo, a ausência de experiência em gestão e uma equipa agora composta por profissionais muito mais jovens e sem o peso histórico da antiga era de ouro, deixou o departamento fragilizado. A juntar a isto, Alan Dye, responsável pelo design de software, mudou-se para a Meta em dezembro de 2025, levando consigo vários colegas.
Os grandes desafios de John Ternus
As consequências desta instabilidade são visíveis nos próprios equipamentos. Embora a tecnológica mantenha o seu calendário de lançamentos, a cadência de inovações visuais abrandou drasticamente. O iPhone, o Apple Watch, os AirPods e o Mac mantiveram designs quase inalterados durante anos a fio, com raras exceções como o Watch Ultra e o recente MacBook Neo. Nos tempos de Steve Jobs, passar quase uma década sem redefinir o aspeto de um produto seria um cenário impensável.
É aqui que John Ternus entra em cena. Com uma forte base em engenharia e produto, Ternus assumiu a supervisão do grupo no final de 2025. Numa reunião interna recente, o futuro CEO optou por um tom de continuidade, mas garantiu que o design voltará a ser central naquilo que a marca produz. O desafio é titânico e o tempo joga contra ele, já que a empresa corre contra o prejuízo na inteligência artificial, enfrenta o escrutínio da União Europeia e precisa de lançar o seu primeiro iPhone dobrável já em setembro, em simultâneo com a linha tradicional.
A próxima fase da tecnológica não se fará apenas com a excelência logística de Cook. O legado de Ternus vai depender da sua capacidade em tornar os equipamentos novamente marcantes. A sua primeira grande prova de fogo será precisamente no evento de outono, onde o modelo dobrável servirá para provar aos consumidores que a magia do design ainda mora na Califórnia. A empresa tem dinheiro e distribuição, mas o verdadeiro teste será reconstruir uma cultura que convença os melhores talentos a ficar.












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