
A Renault está a registar margens de lucro significativamente mais elevadas nos seus automóveis elétricos compactos do que nos modelos de segmentos superiores, contrariando uma das tendências históricas do setor automóvel. De acordo com informações avançadas pelo jornal francês Les Echos, a marca consegue maior rentabilidade com os novos R5, R4 e Twingo do que com o Megane ou o Scenic.
Esta revelação foi feita por François Provost, diretor-executivo da fabricante, que confirmou o sucesso financeiro desta gama compacta apesar do cenário desafiante enfrentado pelos construtores europeus. A esmagadora maioria das marcas continua a lutar para tornar os veículos movidos a bateria rentáveis, pressionada pelas regulamentações europeias e pela forte concorrência dos fabricantes chineses.
Contudo, a estratégia da empresa francesa parece estar a surtir efeito no mercado europeu. O Renault 5 E-Tech, lançado no final de 2024, tornou-se rapidamente num dos elétricos mais vendidos da Europa, impulsionado também pelo aumento da procura após a escalada do conflito entre os EUA e o Irão, que fez disparar os preços dos combustíveis. Os dados da DataForce indicam que, nos primeiros cinco meses do ano, o modelo comercializou 36.633 unidades, um crescimento de 35,6% face ao período homólogo, ocupando a quarta posição na tabela de vendas europeia.
Estratégia de partilha de componentes reduz custos de fabrico
O sucesso financeiro destes modelos assenta principalmente numa agressiva estratégia de redução de custos de produção através da partilha massiva de componentes mecânicos. A plataforma CMF-B EV, utilizada como base para o R5, partilha cerca de 70% dos seus elementos com a arquitetura CMF-B dos modelos a combustão, como o Clio. Isto permitiu mitigar os custos de fabrico em cerca de 30% em comparação com o antigo Zoe.
Esta abordagem estende-se ao R4 e ao futuro Twingo, os quais partilham suspensões, inversores, motores e módulos de bateria. Ao elevar as economias de escala, a Renault reduz o custo unitário de fabrico de toda a gama. Trata-se de uma vantagem que o Megane E-Tech e o Scenic E-Tech não possuem, uma vez que assentam na plataforma AmpR Medium, cujos investimentos são mais difíceis de amortizar devido ao menor volume de produção do segmento superior.
No desenvolvimento do novo Twingo, a marca recorreu ainda ao Advanced China Development Center (ACDC) para concluir o projeto em apenas 18 meses. O veículo foi concebido de raiz para utilizar baterias LFP (fosfato de ferro-lítio), uma tecnologia significativamente mais barata do que as células NMC (níquel, manganês e cobalto) adotadas temporariamente pelo R5 E-Tech e pelo R4 E-Tech.
Nova plataforma visa aumentar rentabilidade dos segmentos superiores
Apesar dos resultados atuais, a fabricante não quer que esta vantagem competitiva se limite aos elétricos compactos. Através do plano estratégico FutuREady, revelado no início do ano por François Provost, a Renault confirmou que já se encontra a desenvolver a nova arquitetura RGEV Medium 2.0. Esta plataforma, projetada maioritariamente em França, promete reduzir os custos de produção em cerca de 40% face à atual geração de segmentos superiores.
A nova arquitetura servirá modelos dos segmentos B+ ao D, incluindo SUV, monovolumes e berlinas. A plataforma incluirá uma arquitetura elétrica de 800 V para carregamentos ultrarrápidos, autonomias de até 750 km (WLTP) ou até 1400 km recorrendo a extensores de autonomia (EREV). Contará também com baterias cell-to-body com uma taxa de integração de até 70%, eliminando cerca de 20% dos componentes atuais.
Para fechar esta ofensiva técnica, a marca adotará um novo motor elétrico de excitação síncrona com 202 kW (275 cv) de potência, livre de terras raras, com configurações de tração dianteira e traseira que reduzem os custos em cerca de 20%. Com o lançamento previsto de 12 novos modelos na Europa até 2030, a Renault espera restabelecer a competitividade de rentabilidade nos seus automóveis de maiores dimensões antes do final da década. Em Portugal, recorde-se que o Twingo está disponível a partir de 19.497 €, enquanto o R5 e o R4 começam nos 24.907 € e 29.747 €, respetivamente.






Sex 10 Jul 2026 - 17:42 por RJCA




