
Os atores de voz em todo o mundo estão a organizar-se para proteger os seus meios de subsistência e os direitos de personalidade perante o avanço rápido das ferramentas de inteligência artificial. Além da ameaça direta aos postos de trabalho, os profissionais alertam para uma perda irreparável da identidade cultural e da emoção local que apenas um humano consegue transmitir. De acordo com a publicação da Rest of World, estúdios e plataformas de streaming estão cada vez mais a optar pela automação para traduzir e adaptar conteúdos estrangeiros, colocando em risco mais de dois milhões de trabalhadores do setor.
A defesa da identidade local
Fabio Azevedo, um conhecido ator brasileiro responsável por dar voz a personagens de renome no universo Marvel, assumiu a liderança na luta contra a automação. O ator sublinha que a utilização de modelos gerados por computador elimina as idiossincrasias que tornam um filme autêntico para o público de um determinado país, resultando numa pasteurização cultural. Perante este cenário, o México já proibiu a utilização de tecnologia sintética nas dobragens sem autorização, e a associação liderada por Azevedo propôs medidas semelhantes no Brasil.
O impacto estende-se a outras regiões do globo. Na Coreia do Sul, os profissionais exigem cláusulas que limitem a utilização de vozes artificiais e protejam os cidadãos contra a captação não autorizada de dados para treino de sistemas. Em simultâneo, na China, vários trabalhadores utilizaram as redes sociais para denunciar a violação de direitos de autor, apelando à proteção da sua fonte de rendimento. Rafael Grohmann, professor na Universidade de Toronto, salienta que os atores do Sul Global enfrentam desafios acrescidos por não possuírem o mesmo poder económico dos sindicatos de Hollywood.
Gigantes do streaming adotam a automação
A expansão dos catálogos internacionais impulsionou a procura por conteúdos localizados, e as plataformas procuram alternativas rápidas e económicas. A Amazon anunciou recentemente a adição de traduções geradas por computador em séries e filmes licenciados que, de outra forma, não receberiam adaptação. No entanto, a recetividade do público nem sempre é positiva, tendo ocorrido a remoção de algumas faixas de áudio após críticas à qualidade artificial em títulos de animação.
Na Índia, a diversidade linguística tornava o mercado de locuções altamente rentável, mas os trabalhos em publicidade e audiolivros estão a desaparecer. Ganessh Divekar, secretário-geral da associação indiana de artistas de voz, revela que os estúdios exigem agora contratos de cedência perpétua. Esta prática permite que as empresas utilizem as gravações originais para alimentar sistemas de inteligência artificial sem compensação adicional para o trabalhador.
O outro lado da moeda
Apesar das preocupações generalizadas com a substituição e o risco de fraude, algumas entidades veem uma oportunidade financeira. Plataformas especializadas em soluções de áudio começaram a oferecer serviços de licenciamento de voz para clientes empresariais, garantindo que a captação de dados é feita de forma intencional e consentida. Nestes casos específicos, os contratos preveem o pagamento de valores consideravelmente mais elevados do que o trabalho tradicional de estúdio, permitindo que os artistas continuem a lucrar à medida que a tecnologia evolui.
Ainda assim, a maioria dos profissionais independentes continua a lutar pela transparência. A necessidade de afirmação tornou-se tão extrema que alguns atores sentem agora a obrigação de esclarecer ativamente nos seus currículos e audições que oferecem uma prestação genuinamente humana, numa tentativa de se demarcarem das máquinas.












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