
Os Estados Unidos preparam-se para endurecer a sua estratégia global de contenção tecnológica, emitindo um ultimato aos parceiros internacionais. De acordo com um documento interno do Departamento de Estado acedido pela Reuters, a administração norte-americana vai exigir que 35 países escolham inequivocamente entre a coligação tecnológica de Washington e as iniciativas rivais lideradas por Pequim.
O alvo deste aviso são os signatários da AI Opportunity Statement, um acordo firmado em junho para estreitar a cooperação em áreas críticas como a inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos e cadeias de abastecimento. A medida assinala uma mudança drástica na postura diplomática dos EUA, transformando a aliança económica Pax Silica num bloco restrito de parceiros de confiança onde a partilha de recursos não pode beneficiar a China de forma indireta.
O ultimato da coligação Pax Silica
A iniciativa Pax Silica foi desenhada por Washington para garantir o controlo sobre as cadeias de abastecimento da próxima geração de inteligência artificial, abrangendo desde o fabrico de chips até à infraestrutura de centros de dados. Conta com a participação de cerca de duas dezenas de nações, incluindo o Japão, a Austrália e a Coreia do Sul, enquanto a declaração mais ampla de cooperação abrange mais de 30 governos e economias.
O rascunho governamental norte-americano dita que a integração neste grupo passa a ser um compromisso estratégico exclusivo. Pertencer à Pax Silica torna-se incompatível com a participação em projetos que persigam objetivos tecnológicos opostos. O alerta reflete a preocupação com o rápido avanço dos modelos de pesos abertos desenvolvidos por empresas chinesas, que começam a encurtar a distância para plataformas de gigantes como a OpenAI e a Anthropic.
Para os países europeus e outros aliados globais, esta política tem um impacto prático elevado. Aceder a financiamento, infraestruturas informáticas ou recursos minerais dos parceiros norte-americanos exigirá um corte claro nas relações tecnológicas com o eixo asiático rival, forçando os governos a assumirem uma posição geopolítica definitiva.
O caso do Cazaquistão e a resposta de Pequim
O ponto de viragem para esta exigência de exclusividade ocorreu com o Cazaquistão. Em junho, os Estados Unidos celebraram a entrada do país asiático na Pax Silica, um movimento valorizado pelas suas ricas reservas de minerais essenciais aos semicondutores e tecnologias avançadas. Pouco tempo depois, o país aderiu também a uma iniciativa promovida por Pequim, tornando-se o único Estado conhecido a integrar os dois blocos simultaneamente.
A pressão de Washington surge também como uma resposta direta à criação da World Artificial Intelligence Cooperation Organization, impulsionada em julho pelo presidente chinês Xi Jinping. O plano chinês passa por utilizar os seus modelos de IA como alavanca diplomática, oferecendo infraestruturas e modelos de código aberto a países que não queiram depender do ecossistema proprietário ocidental.
O cenário tecnológico global deixa de focar-se apenas em restringir o acesso a processadores avançados. A meta concentra-se na formação de uma cadeia de parceiros totalmente alinhada. Perante este endurecimento, a competição entra numa fase onde manter uma diplomacia neutra deixará de ser uma opção viável.












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