
É uma mudança tectónica no comércio global e uma excelente notícia para a indústria automóvel do velho continente. A União Europeia e a Índia selaram finalmente um acordo comercial abrangente que promete derrubar as barreiras históricas que impediam a entrada de veículos europeus no mercado indiano. A medida, anunciada em Nova Deli, visa reduzir drasticamente as taxas de importação que, até agora, tornavam os carros europeus praticamente invendáveis no país mais populoso do mundo.
Durante anos, a Índia manteve uma postura protecionista com tarifas de importação que podiam chegar aos 110% sobre o valor dos veículos. Este cenário transformou o mercado indiano numa miragem inalcançável para os fabricantes europeus, fossem eles de modelos a combustão ou elétricos. No entanto, as negociações recém-concluídas estabeleceram uma nova e vasta zona de comércio livre, sinalizando uma mudança de paradigma na relação entre estas duas potências económicas.
Uma autoestrada aberta para os elétricos europeus
O setor automóvel foi destacado como um dos grandes beneficiários deste entendimento. Embora os detalhes técnicos completos ainda estejam a ser finalizados, os contornos gerais são promissores. Segundo a Comissão Europeia, as tarifas sobre os veículos a motor exportados para a Índia serão reduzidas gradualmente dos atuais 110% para valores tão baixos quanto 10%.
Esta redução aplicar-se-á a uma quota anual de 250.000 veículos, abrindo uma porta significativa para as marcas da Europa. Mais impressionante ainda é o plano para as peças e componentes automóveis: as tarifas neste setor deverão ser "totalmente eliminadas" num prazo de cinco a dez anos. Esta medida é vista como um catalisador crucial para tornar os carros elétricos europeus competitivos no mercado indiano, apoiando a transição energética que o país asiático está a realizar a um ritmo acelerado. Curiosamente, a UE ainda não revelou quais serão as contrapartidas para os fabricantes indianos que desejem exportar para a Europa.
Impacto económico e sustentabilidade
O acordo vai muito além dos automóveis. A ambição é duplicar as exportações de bens da UE para a Índia até 2032, eliminando ou reduzindo tarifas em 97% dos produtos. Setores como a maquinaria, químicos e farmacêuticos verão as suas taxas de importação, que atualmente variam entre 11% e 44%, serem largamente abolidas. A UE estima que estas reduções resultem numa poupança anual de cerca de quatro mil milhões de euros em taxas para os produtos europeus.
Num contexto global onde a China disputa a liderança económica e as tensões geopolíticas aumentam, este acordo reforça o compromisso com um comércio baseado em regras. Além disso, o tratado inclui disposições dedicadas à sustentabilidade, alinhando-se com os esforços da Índia na eletrificação dos transportes e no desenvolvimento de combustíveis baseados em hidrogénio.
Apesar do aperto de mão político, o acordo não entra em vigor amanhã. O texto final terá de passar pelo escrutínio jurídico, ser traduzido para todas as línguas oficiais da UE e receber a aprovação do Conselho e do Parlamento Europeu, bem como a ratificação por parte da Índia. Contudo, ao contrário de outros tratados recentes que encontraram resistência, espera-se que este avance sem grandes obstáculos, uma vez que não toca em pontos sensíveis para os agricultores europeus.