
Imagine o cenário: acabou de investir uma pequena fortuna numa configuração de sonho. Pode ter comprado um computador pré-montado de alta gama ou escolhido peça por peça o melhor hardware disponível no mercado. Instala o jogo mais recente, define os gráficos no máximo (esperando aquela qualidade visual imaculada), começa a jogar e... depara-se com micro-paragens, soluços na imagem e quebras de fluidez.
Antes de começar a culpar a otimização dos estúdios ou a reinstalar os drivers da placa gráfica, saiba que o problema pode residir num "software fantasma" que está a correr em segundo plano juntamente com o seu jogo. Estamos a falar do DRM, uma ferramenta criada para combater a pirataria, mas que frequentemente acaba por penalizar mais o jogador legítimo do que os infratores.
A sigla refere-se a Digital Rights Management (Gestão de Direitos Digitais). De uma forma simplificada, é a tecnologia utilizada pelas editoras para proteger as suas obras contra cópias ilegais. Quando adquire um título na Steam ou na Epic Games, o DRM atua como um "segurança" que valida a sua licença. Pode ser algo simples, como uma verificação online no arranque, ou sistemas complexos e intrusivos como o conhecido Denuvo, que opera profundamente no código, criando barreiras de encriptação que o sistema tem de descodificar em tempo real.
Como o sistema de proteção afeta o processador
A questão não é a proteção em si, mas a forma como esta é implementada. Imagine que está a participar numa corrida, mas a cada 100 metros encontra um posto de controlo que o obriga a parar, mostrar a identificação e verificar a fotografia antes de o deixar prosseguir. Isto destruiria completamente o ritmo da corrida.
É exatamente este o efeito que os DRMs mais agressivos têm sobre o processador. O software exige que o CPU desencripte dados constantemente enquanto o utilizador joga. Além disso, o processador é obrigado a dividir a sua atenção entre calcular a física e a inteligência artificial do jogo e satisfazer as verificações de segurança constantes.
Num exemplo prático, se o seu CPU demorar 5 milissegundos a renderizar um quadro do jogo, mas o DRM exigir mais 2 milissegundos aleatórios para uma verificação, o resultado será um pico no tempo de quadro (frametime), percetível como um "soluço" na imagem. Isto é particularmente crítico em processadores com arquiteturas complexas, onde a latência entre núcleos já é um fator sensível, embora a AMD tenha vindo a mitigar esta questão ao longo do tempo. Adicionar uma camada de software pesado e imprevisível a esta equação é um convite a problemas de desempenho.
As provas reais: Resident Evil e a polémica da Ubisoft
A comunidade de jogadores no PC tem realizado diversos testes comparativos entre versões originais (com DRM) e versões "crackeadas" (sem as proteções) ou atualizadas onde o sistema foi removido oficialmente. Os resultados tendem a reforçar a ideia de que estes recursos prejudicam a experiência de jogo.
Um dos casos mais notórios envolveu o Resident Evil Village. Jogadores da versão legítima queixavam-se de quebras severas de fluidez sempre que eliminavam um inimigo — o momento exato em que o DRM verificava a ação. Em contrapartida, a versão disponibilizada por hackers corria de forma perfeitamente fluida. Mais tarde, a Capcom lançou uma correção oficial para resolver o problema, admitindo indiretamente que a falha residia na proteção.
Saindo dos grandes títulos para os jogos independentes, o título Rime é outro exemplo clássico. O estúdio Tequila Works prometeu remover o Denuvo se a proteção fosse quebrada. Quando tal aconteceu e o DRM foi retirado, os testes demonstraram que os tempos de carregamento ficaram significativamente mais rápidos na versão limpa.
Apesar destes casos, o debate continua. Algumas empresas, como a Ubisoft, já defenderam no passado (como no caso de Assassin's Creed Origins) que este tipo de recursos não prejudica a jogabilidade, mesmo quando confrontadas com testes que indicam o contrário.
Como consumidor, não precisa de ficar refém de jogos mal otimizados devido a proteções abusivas. Uma das melhores formas de contornar o problema é apoiar plataformas como o GOG, que vende jogos totalmente livres de DRM. Ao comprar nestas lojas, descarrega e instala o jogo, que é seu sem verificações ocultas.
No caso da Steam e outras lojas, verifique sempre a caixa de aviso na página do produto. Se houver menção a "Denuvo Anti-Tamper" ou similar, pesquise online como o jogo se comporta na sua configuração antes de comprar. Muitas vezes, a paciência compensa: vários estúdios acabam por remover o Denuvo alguns meses ou anos após o lançamento, garantindo não só um jogo mais barato, mas também com melhor desempenho.










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