
Numa era em que grandes empresas tecnológicas detêm um poder desmedido sobre a vida digital dos cidadãos, a questão da proteção de dados tornou-se central. Para Meredith Whittaker, CEO da plataforma de mensagens Signal, a resposta é clara: a privacidade não deve ser encarada como um luxo reservado a quem tem segredos, mas sim como um direito humano fundamental.
Em entrevista ao canal de notícias holandês VPRO Tegenlicht, Whittaker desmontou a ideia de que apenas criminosos ou pessoas com algo a ocultar se preocupam com a encriptação. Segundo a responsável, esta narrativa serve, na realidade, uma indústria publicitária que deseja manter o controlo absoluto sobre a recolha de informação para maximizar os seus lucros.
O perigo do argumento "não tenho nada a esconder"
É comum ouvir-se, tanto por parte de entidades políticas como de gigantes tecnológicos, o argumento de que quem não deve, não teme. No entanto, Whittaker propõe uma experiência mental simples para combater esta noção. A CEO desafia qualquer pessoa a imaginar que todas as mensagens privadas enviadas a amigos, todos os "gostos" nas histórias do Instagram, todas as interações em aplicações de encontros e todas as conversas desabafadas com colegas fossem despejadas numa base de dados pública e enviadas aos seus entes queridos.

A realidade é que a exposição total da vida privada não é confortável para ninguém. Além do embaraço social, Whittaker alerta que a partilha excessiva de detalhes pessoais online é perigosa. Estas informações são frequentemente utilizadas para autenticar identidades e podem ser exploradas por criminosos para aceder a contas bancárias ou infiltrar-se na privacidade das vítimas.
Lucrar com a vigilância
A indústria tecnológica atual foi construída sobre a monetização da informação. As empresas recolhem vastas quantidades de dados dos utilizadores para gerar receitas, seja através da venda de acesso a perfis de consumidores, do treino de modelos de inteligência artificial ou do licenciamento de APIs.
A Signal posiciona-se no extremo oposto deste modelo económico. Como organização sem fins lucrativos, o objetivo da plataforma é recolher a menor quantidade de informação possível. Whittaker explica que a equipa trabalha para reescrever componentes fundamentais da infraestrutura técnica, permitindo que as pessoas comuniquem de forma privada, evitando as práticas de vigilância que se tornaram a norma no setor. Para a CEO, o sistema que erodiu a privacidade foi criado por pessoas e, portanto, também pode ser mudado por elas, sendo a Signal a prova de que um caminho tecnológico diferente é possível.












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