
O perfil dos piratas informáticos está a mudar de forma drástica, deixando para trás a destruição imediata para dar lugar a operações furtivas e de longo prazo. Segundo o mais recente relatório da NTT DATA, focado no segundo semestre de 2025, os agentes maliciosos estão a refinar as suas táticas para maximizar o impacto económico e estratégico, operando muitas vezes nas sombras dos sistemas comprometidos.
O fim do barulho e a ascensão dos ataques furtivos
A análise demonstra que o espaço digital se transformou num autêntico campo de batalha para conflitos políticos, de segurança e económicos. As tensões globais e a fragmentação tecnológica estão a ter um impacto direto nas infraestruturas digitais e nas cadeias de abastecimento. Na prática, o ciberespaço tornou-se o local perfeito para exercer pressão sobre governos e empresas privadas sem a necessidade de um conflito militar tradicional.
A impulsionar esta nova vaga de ameaças está a inteligência artificial, que funciona agora como um multiplicador de força. A tecnologia está a ser usada para automatizar campanhas de desinformação e acelerar ataques, permitindo que tanto grupos criminosos altamente organizados como atores estatais alcancem um público muito mais vasto. Além disso, o encerramento de grandes fóruns clandestinos na internet não diminuiu o crime, apenas forçou a sua fragmentação. O mercado ilícito está agora dividido em canais privados e especializados, o que torna a monitorização destas atividades uma tarefa muito mais complexa para as autoridades.
Setores na mira e o peso do resgate de dados
No campo da extorsão, o ransomware atingiu um nível de sofisticação preocupante. Os piratas informáticos combinam processos automáticos com o roubo de dados altamente sensíveis, aplicando pressão pública de forma gradual para destruir a reputação das vítimas. É cada vez mais comum ver estes grupos a abusar de serviços cloud e soluções legítimas das empresas para se movimentarem pelas redes sem deixar rasto.
Os números do semestre mostram tendências claras sobre quem está na mira debaixo de fogo. A administração pública e as entidades governamentais lideraram a lista, sofrendo 3343 ataques. Seguiram-se as instituições de ensino com 1140 incidentes, o setor financeiro com 957, as tecnologias de informação com 802 e, por fim, as telecomunicações, alvo de 614 incursões. Globalmente, o custo económico deste tipo de criminalidade já atinge uns impressionantes 10,5 biliões de dólares anuais.
Mudar a mentalidade da defesa
Embora as leis sejam cada vez mais apertadas e as operações policiais internacionais estejam a dar frutos, a realidade é que os grupos cibercriminosos adaptam-se a uma velocidade superior à das próprias defesas. Existe uma falha notória entre o simples cumprimento de normas legais e a verdadeira capacidade de uma empresa sobreviver e operar durante uma crise.
Os especialistas da empresa avisam que é preciso ir além da conformidade. María Pilar Torres Bruna, responsável de cibersegurança em várias regiões europeias e latino-americanas, destaca que os ataques atuais procuram influenciar estratégias e decisões de longo prazo, exigindo uma defesa baseada na resiliência contínua. Por sua vez, Luis Lobo, responsável pelos serviços de cibersegurança em Portugal, reforça que o perigo reside no silêncio e na persistência das ameaças modernas, sublinhando que a segurança digital tem de estar enraizada nos próprios processos de negócio das organizações.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!