
Numa medida que surpreendeu o setor, a Oracle notificou milhares de trabalhadores por email às 6 da manhã do dia 31 de março para ditar o fim das suas funções. De acordo com os dados partilhados pelo Yahoo Finance, a mensagem enviada aos funcionários indicou que a eliminação dos cargos faz parte de uma reestruturação mais alargada e que esse seria o último dia de trabalho.
O número total de despedimentos permanece incerto, com os relatos a variarem entre 10.000 e 30.000 trabalhadores afetados. Caso se confirme o patamar mais elevado, este corte representará quase 19% de toda a força de trabalho da empresa, que conta com cerca de 162.000 colaboradores. A gigante tecnológica preferiu não fazer comentários oficiais sobre a dimensão ou os motivos desta decisão.
Nas redes sociais, Nina Lewis, uma gestora de alertas de segurança com 34 anos de casa, expressou o seu choque por ser uma das pessoas afetadas. Na sua publicação, apontou que os cortes parecem seguir uma lógica focada em colaboradores individuais de nível superior e gestores intermédios, especialmente aqueles que detinham opções de ações de elevado valor.
A fatura da inteligência artificial
Esta vaga de despedimentos surge num momento de contrastes financeiros para a empresa cofundada por Larry Ellison. Embora a Oracle tenha registado um aumento de 95% no lucro líquido no último trimestre, alcançando cerca de 5,6 mil milhões de euros (6 mil milhões de dólares), as suas ações fecharam o dia dos cortes a 147,11 dólares. Este valor representa uma quebra acentuada de 55% face ao recorde histórico de 326,90 dólares atingido no passado mês de setembro.
A justificação para este cenário reside na forte aposta na inteligência artificial. A empresa está a tentar gerir a pressão financeira gerada pela expansão maciça dos seus centros de dados, essencial para competir com a Amazon e fornecer infraestrutura a parceiros de peso como a OpenAI, com a qual assinou um acordo de 300 mil milhões de dólares no ano passado.
Com os custos de financiamento a duplicarem perante a hesitação da banca, uma análise da TD Cowen sugere que a eliminação destes 20 a 30 mil postos de trabalho poderá trazer uma poupança de até 9,3 mil milhões de euros (10 mil milhões de dólares).
O impacto global no setor tecnológico
O receio de que a automação substitua o trabalho humano tem crescido de forma visível. Uma sondagem da Universidade Quinnipiac revelou que 30% dos trabalhadores norte-americanos temem que a IA torne as suas funções obsoletas. Este receio ganha força com um estudo do MIT de 2025, que indica que 11,7% do mercado de trabalho — incluindo áreas como finanças, saúde e serviços profissionais — pode vir a ser substituído por estas tecnologias.
No setor tecnológico, o ritmo dos cortes tem sido intenso e frequentemente associado à reestruturação para a IA. Plataformas de monitorização como o Layoffs.fyi e o Trueup estimam que as perdas de emprego nas grandes tecnológicas já variam entre 41.000 e 85.000 apenas este ano. Na Oracle, a reestruturação aconteceu pouco depois de o CEO Mike Sicilia ter elogiado as ferramentas de programação com IA por permitirem que equipas de engenharia mais pequenas entreguem soluções completas.
O movimento reflete uma tendência generalizada. A Amazon despediu 16.000 trabalhadores corporativos em janeiro — acumulando com os 14.000 cortes de outubro —, após Andy Jassy ter admitido que a IA iria reduzir a força de trabalho corporativa à medida que se ganha eficiência.
Outros exemplos incluem a Dell, com 11.000 cortes no final de janeiro, e a Block Inc., que eliminou mais de 4.000 postos em fevereiro devido à automação. Também a Meta justificou o despedimento de cerca de 700 pessoas em março com o foco na IA, no mesmo mês em que a Atlassian cortou 1.600 postos para preparar novos investimentos na área.












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