
Uma equipa de investigadores da colaboração BASE, no CERN, alcançou um marco histórico na física de partículas ao desenvolver o primeiro bit quântico — ou qubit — composto inteiramente por antimatéria. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Nature, detalha como os cientistas conseguiram manter um único antiprotão a alternar de forma estável entre dois estados de spin quântico durante quase um minuto, no interior de uma armadilha magnética.
Um antiprotão atua como o espelho de um protão comum: partilha exatamente a mesma massa, mas carrega uma carga elétrica oposta. À imagem de ímanes microscópicos, estas partículas possuem uma propriedade intrínseca denominada spin, que pode apontar em duas direções distintas. A capacidade de observar e controlar estas transições é fundamental para o avanço da deteção quântica e para a realização de medições de extrema precisão.
O teste derradeiro à simetria do Universo
Além do feito tecnológico, esta investigação abre portas para testar um dos pilares da física moderna: a simetria CPT (Carga, Paridade e Tempo). Segundo o Modelo Padrão da física de partículas, as leis do Universo devem permanecer inalteradas se invertermos a carga, a configuração espacial e o fluxo temporal de um sistema. Isto implica que a matéria e a antimatéria devem comportar-se de forma idêntica, partilhando massas e tempos de vida iguais.
Para realizar esta observação sem precedentes, os cientistas recorreram a uma técnica avançada de espetroscopia de transição quântica coerente. Este método permitiu isolar a partícula e reduzir drasticamente a interferência de ruído externo. Utilizando um sistema criogénico conhecido como armadilha de Penning, a equipa mediu o estado inicial de spin do antiprotão e transferiu-o de seguida para um ambiente com um campo magnético altamente estável.
Um novo rumo para a investigação científica
Durante as experiências, os investigadores registaram probabilidades de inversão de spin superiores a 80%, garantindo tempos de coerência na ordem dos 50 segundos. Pela primeira vez na história, foram também observadas oscilações de Rabi num spin de antimatéria — um efeito que permite o controlo preciso de estados quânticos e que serve de base ao desenvolvimento de qualquer qubit na computação moderna.
Apesar de os qubits serem os blocos fundacionais dos computadores quânticos, os autores do estudo esclarecem que o objetivo não passa por criar tecnologias de consumo imediatas, mas sim por dotar a ciência de ferramentas muito mais precisas para comparar a matéria e a antimatéria.
Segundo explicou a equipa, conforme detalhado no portal oficial do CERN, os próximos passos passam pelo projeto BASE-STEP. Esta nova infraestrutura foi desenhada para transportar os antiprotões capturados para ambientes magnéticos ainda mais silenciosos, o que poderá multiplicar a estabilidade do sistema e ajudar a responder a um dos maiores mistérios da cosmologia: o motivo pelo qual o nosso Universo é dominado por matéria comum.












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