
O computador pessoal tem demonstrado uma resiliência notável ao longo dos últimos 15 anos, sobrevivendo à era "pós-PC" prometida pelos tablets e à omnipresença dos smartphones. No entanto, 2026 traz um teste de fogo a essa resistência, com o mercado a enfrentar uma tempestade perfeita nos preços dos componentes.
Nos últimos meses, os preços da memória RAM e do armazenamento NAND/SSD dispararam devido à escassez provocada pela procura insaciável dos centros de dados de Inteligência Artificial. A situação atingiu um ponto crítico onde algumas lojas vendem memória como se fosse um artigo de luxo, os custos dos computadores pré-montados aumentaram e alguns assembladores chegaram ao ponto de vender PCs sem qualquer memória RAM incluída.
Segundo informações do The Verge, estamos prestes a ver como esta escassez vai atingir os consumidores de marcas como a Lenovo, Dell, HP, Asus e Acer. As previsões da TrendForce indicam que os preços da memória deverão "subir acentuadamente de novo no primeiro trimestre de 2026". Estes aumentos vão colocar ainda mais pressão sobre o preço final dos portáteis e desktops, com os fabricantes já a ajustarem as tabelas de preços durante a CES desta semana.
O impacto nas grandes marcas
A Asus já comunicou aos seus parceiros de canal que está a implementar aumentos de preços nos seus produtos como resultado direto das condições do mercado de memória. Num sinal de que o preço dos portáteis será cada vez mais volátil, a Dell ajustou o preço de lançamento dos seus XPS 14 e XPS 16 apenas algumas horas antes do seu anúncio oficial.
Para tentar navegar esta tempestade, a Lenovo tem estado a acumular stock de memória para PC, numa tentativa de manter os preços estáveis ao longo de 2026. A HP também possui um stock de segurança, mas já avisou que terá de aumentar preços e oferecer configurações com menos RAM ainda este ano, prevendo que o aumento contínuo dos custos comece a afetar as margens de lucro dos seus produtos a partir de maio.
Reduzir a quantidade de RAM nos portáteis não é uma solução simples, especialmente abaixo do limiar dos 8 GB. O Windows 11 tem um requisito mínimo de 4 GB, mas o desempenho é notoriamente fraco nessas condições. Embora alguns smartphones possam regressar aos 4 GB este ano, nos portáteis económicos a redução da DRAM é limitada pelas necessidades de emparelhamento com o processador e pelas exigências do sistema operativo.
O momento desta escassez é particularmente crítico para a Microsoft e os seus parceiros. Com o Windows 10 a ter atingido o fim de vida em outubro passado, muitas empresas estão em processo de migração para o Windows 11. Este ciclo de atualização de hardware, que mostrava sinais fortes de aceleração ao longo de 2025, pode descarrilar ainda este ano assim que os stocks de RAM se esgotarem.
A culpa é da Inteligência Artificial
O problema não é apenas uma questão de tempo ou de um ciclo temporário. A IDC alerta que este aumento de preços pode ser permanente, fruto de uma realocação estratégica da capacidade mundial de produção de wafers de silício. Durante décadas, a produção de DRAM e NAND Flash para smartphones e PCs foi o motor principal da indústria. Hoje, essa dinâmica inverteu-se.

A procura voraz de "hyperscalers" como a Microsoft, Google, Meta e Amazon levou fabricantes como a Samsung, SK Hynix e Micron a focarem-se na construção de memória de alta largura de banda (HBM) e DDR5 de alta capacidade. Cada wafer de silício alocado a uma pilha HBM para uma GPU da Nvidia é um wafer negado a um módulo LPDDR5X de um smartphone de gama média ou ao SSD de um portátil de consumo.
Esta situação terá um impacto profundo no mercado de gaming e na montagem de PCs (DIY). Embora o envio de PCs de gaming tenha subido 50% anualmente, os pequenos assembladores, que não conseguem armazenar grandes quantidades de RAM ou SSDs, vão suportar o maior fardo da escassez. Isto cria uma oportunidade para os grandes fabricantes (OEMs) ganharem quota de mercado ao posicionarem os seus sistemas pré-montados como opções de maior valor.
Jogadores e consolas na linha de fogo
A escassez de memória também ameaça os preços das placas gráficas. Rumores sugerem que a Nvidia poderá forçar os parceiros a ajustar os preços para refletir o custo acrescido da memória. Ben Berraondo, diretor global de RP da Nvidia GeForce, admitiu que a procura de memória está em níveis recorde e que a oferta será limitada.
Apesar da falta de mudanças oficiais na cadeia de fornecimento da GeForce, os preços já estão a subir. A loja Newegg começou a listar várias placas RTX 5090 muito acima dos 4.000 dólares (cerca de 3.800 euros), tornando-se cada vez mais difícil encontrar este modelo abaixo dos 3.000 dólares, depois de os preços terem estado próximos do valor de retalho recomendado de 1.999 dólares (aprox. 1.900 euros) em setembro. Embora o modelo Founders Edition ainda esteja listado ao preço original na Best Buy, encontra-se constantemente esgotado, não representando a realidade do mercado.
Se os custos de montar um PC de jogos não estabilizarem em 2026, a Microsoft sentirá também uma pressão acrescida nos seus planos para a próxima geração da Xbox. A empresa tem vindo a apostar no PC como o futuro das consolas Xbox, mas o custo dos componentes pode forçar o preço da próxima consola a subir ainda mais, afetando também os planos da Sony com a PS6 e a futura Steam Machine da Valve.
A crise ameaça ainda o esforço da Microsoft nos PCs com IA. A empresa definiu um requisito mínimo surpreendente de 16 GB de RAM para os seus PCs Copilot Plus, necessários para lidar com modelos de linguagem locais. A Qualcomm tem tentado baixar o preço destes dispositivos Windows on Arm para a faixa dos 600 dólares (aprox. 570 euros), mas esse esforço parece agora destinado a falhar devido aos custos da memória.
Parece cada vez mais que estamos a assistir a uma batalha pelo futuro do PC, onde os preços dos componentes e a IA ditam as regras. Se a procura pela IA vencer, as tarefas de computação tradicionais poderão mover-se cada vez mais para a nuvem, forçando empresas e jogadores a dependerem de serviços de streaming em vez de hardware local dispendioso.