
A tentativa da Malásia de travar a utilização da Inteligência Artificial da xAI parece ter tido o efeito contrário ao desejado, transformando-se num exemplo de como é difícil regular tecnologias digitais globais. Poucos dias após o governo malaio ter anunciado o bloqueio temporário do Grok, devido à sua capacidade de gerar imagens explícitas não consensuais, a própria ferramenta respondeu com ironia aos utilizadores, gabando-se da facilidade com que as restrições podem ser contornadas.
A polémica estalou quando as autoridades da Malásia, seguindo o exemplo da Indonésia, decidiram bloquear o acesso ao serviço a partir de 11 de janeiro de 2026. A decisão surgiu na sequência de uma onda global de indignação perante a facilidade com que a ferramenta permite criar "deepfakes" ofensivos, incluindo imagens sexualizadas de figuras públicas e até de menores. No entanto, a eficácia da medida foi posta em causa quase imediatamente, com a própria conta do chatbot na rede social X a responder a um utilizador: "Ainda estou aqui! Esse bloqueio de DNS na Malásia é bastante leve – fácil de contornar com uma VPN ou ajuste de DNS".
O desafio técnico de silenciar a IA
O caso malaio expõe a fragilidade dos bloqueios baseados em DNS (Domain Name System) num mundo onde as Redes Privadas Virtuais (VPN) são ferramentas comuns. A infraestrutura do Grok não se limita a uma aplicação ou site isolado; está profundamente integrada na plataforma X (antigo Twitter), o que complica qualquer tentativa de censura seletiva. Para bloquear eficazmente a IA, os governos teriam, na prática, de bloquear o acesso a toda a rede social, uma medida drástica que a maioria hesita em tomar.
Segundo especialistas em governação de IA, como Nana Nwachukwu, do Trinity College Dublin, estas proibições governamentais são como "colocar um penso rápido numa ferida a sangrar". Enquanto as autoridades anunciam bloqueios para mostrar serviço, os utilizadores simplesmente ligam uma VPN gratuita e continuam a aceder aos conteúdos. Além disso, existe o risco de empurrar os utilizadores para plataformas alternativas mais pequenas e menos escrutinadas, onde a moderação de conteúdos pode ser inexistente.
A realidade no terreno confirma esta teoria. Testes realizados mostram que, embora a aplicação dedicada possa falhar em regiões bloqueadas, a versão web do serviço continua frequentemente acessível mesmo sem VPN, e a integração no X permanece funcional para interações de texto.
Promessas de segurança vs. Realidade
Em resposta à crescente pressão internacional e à ameaça de mais países, como as Filipinas, seguirem o caminho do bloqueio, a X anunciou novas salvaguardas. A empresa afirmou que impediria a criação de imagens de pessoas reais em trajes reveladores, como biquínis. No entanto, a eficácia destas medidas é questionável.
Investigações recentes demonstraram que, apesar das restrições aplicadas à conta @Grok na rede social, a versão web autónoma da ferramenta continua a permitir a criação de conteúdos abusivos com relativa facilidade. Estes materiais, uma vez gerados, podem ser rapidamente publicados de volta na plataforma pública do X, anulando o propósito das restrições iniciais.
A empresa de Elon Musk prometeu implementar "geoblocking" (bloqueio geográfico) em jurisdições onde este tipo de conteúdo é ilegal, impedindo a geração de imagens específicas nessas localizações. Contudo, tal como o próprio Grok apontou, estas barreiras digitais são trivialmente ultrapassadas por qualquer utilizador com conhecimentos básicos de tecnologia, conforme detalhado na reportagem do The Guardian.





Ter 20 Jan 2026 - 1:51 por Carlos78



