
A chegada oficial de entidades governamentais dos Estados Unidos à rede social descentralizada continua a gerar ondas de choque na comunidade. A mais recente controvérsia envolve o ICE (Immigration and Customs Enforcement), a agência de controlo de imigração e alfândegas dos EUA, que acaba de receber a verificação oficial na plataforma e, quase instantaneamente, ascendeu ao pódio das contas mais bloqueadas pelos utilizadores.
Segundo os dados disponibilizados pelo rastreador de terceiros Clearsky, a conta oficial do ICE ocupa agora a terceira posição na lista de perfis com maior número de bloqueios na rede social. A reação da comunidade foi rápida e hostil, com muitos utilizadores a expressarem o seu descontentamento e a partilharem ativamente "blocklists" (listas de bloqueio) que permitem ocultar automaticamente todas as contas associadas ao governo norte-americano com apenas um clique.
Uma comunidade que resiste à presença governamental
A hostilidade para com a presença de agências estatais na Bluesky não é um caso isolado. O movimento de bloqueio em massa ganhou força em outubro passado, quando a Casa Branca e várias outras agências governamentais sob a administração Trump criaram contas na plataforma. Na altura, estas adesões foram motivadas pela intenção de publicar mensagens sobre o encerramento do governo (shutdown), culpando os Democratas pela situação.

O resultado dessa incursão digital é visível nas estatísticas atuais: a Casa Branca permanece como a segunda conta mais bloqueada de toda a rede, superada apenas pelo perfil do Vice-Presidente J.D. Vance. Embora o ICE não se tenha juntado nessa vaga inicial de outubro — tendo a conta @icegov.bsky.social sido criada a 26 de novembro de 2025 —, a sua recente verificação pela equipa da plataforma, ocorrida há poucos dias, serviu de catalisador para esta nova vaga de rejeição digital.
O conflito de filosofias no "Fediverso"
A decisão da Bluesky em acolher e verificar estas entidades aproxima a sua gestão das práticas das grandes redes sociais centralizadas, como o X (antigo Twitter) ou o Facebook, afastando-se do espírito original da web social aberta, muitas vezes referida como "Fediverso". Em plataformas federadas como o Mastodon, o controlo está muito mais descentralizado: os operadores de cada servidor têm a liberdade de bloquear preventivamente contas governamentais, impedindo que estas interajam com as suas comunidades locais.
Esta tensão entre a gestão centralizada da Bluesky e a cultura descentralizada tornou-se evidente com a reação de Eugen Rochko, fundador do Mastodon. Após publicar uma mensagem crítica em relação ao ICE, Rochko anunciou que iria retirar a sua conta pessoal da "ponte" (bridge) que conecta o Mastodon à Bluesky. Esta tecnologia de ponte, que visa unir diferentes protocolos, tem sido um ponto de discórdia, com vários utilizadores do Fediverso a recusarem qualquer ligação com a "atmosfera" da Bluesky.
Curiosamente, no mesmo dia em que a polémica estalou, o projeto Bridgy Fed lançou uma nova funcionalidade que permite adicionar listas de bloqueio de domínios a contas interligadas, oferecendo aos utilizadores do Fediverso uma ferramenta mais robusta para se protegerem de conteúdos indesejados vindos de outras redes. Enquanto o ICE mantém uma presença verificada em plataformas como o YouTube, Instagram e LinkedIn, a sua receção na web descentralizada prova que, nestes novos espaços digitais, a comunidade detém um poder de moderação coletiva sem precedentes.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!