
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas um novo estudo académico sugere que a tua foto de perfil pode valer milhares de euros em salário extra. Investigadores afirmam que traços de personalidade, inferidos através da análise de fotografias por inteligência artificial, conseguem prever o sucesso de um indivíduo no mercado de trabalho.
Embora os autores do estudo sublinhem que não defendem esta prática, considerando a extração de personalidade a partir de imagens faciais como fundamentalmente discriminatória, a realidade é que estas tecnologias já estão a infiltrar-se nos departamentos de Recursos Humanos.
O rosto como bola de cristal para o salário
Num artigo intitulado "AI Personality Extraction from Faces: Labor Market Implications", uma equipa de investigadores de Wharton, Reichman University, Indiana University e Yale descreve como utilizou as fotos de perfil do LinkedIn de mais de 96.000 graduados de MBA. O objetivo? Extrair os chamados "Big Five" ou os cinco grandes traços de personalidade: Abertura, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo.
O algoritmo de aprendizagem automática utilizado baseia-se num estudo de 2020, que muitos críticos na comunidade científica já classificaram como "pseudociência". No entanto, ao aplicar esta IA às imagens, os investigadores descobriram que os traços inferidos a partir das características faciais fornecem um poder de previsão substancial sobre os resultados laborais.
Os dados mostraram que a máquina conseguiu prever com precisão o nível dos programas de licenciatura e MBA frequentados, a remuneração inicial, a trajetória salarial e até as transições de emprego. Essencialmente, se uma empresa utilizar uma técnica semelhante para avaliar candidatos a cargos de gestão, o resultado pode servir como uma previsão do futuro desempenho do candidato, por muito enviesado que esse método possa ser.
A realidade nas empresas e o problema da regulação
O que torna este estudo particularmente alarmante não é apenas a capacidade teórica da tecnologia, mas o facto de já estar a ser utilizada. Marina Niessner, coautora do estudo e professora assistente na Indiana University, revelou que o setor empresarial não está à espera da validação académica.
Em entrevista ao The Register, Niessner explicou que empresas como bancos já utilizam inquéritos de personalidade nas decisões de contratação e promoção. Mais preocupante ainda é o facto de empresas de recrutamento baseadas em IA estarem a começar a utilizar tecnologias de análise de traços de personalidade em entrevistas de vídeo.
Os investigadores alertam que o ambiente regulatório é ainda muito incerto. O objetivo do estudo é precisamente fornecer uma avaliação académica destas metodologias, essencial para qualquer discussão futura sobre a regulação do setor. O argumento central é que, embora a triagem baseada em IA seja problemática, ela deve ser ponderada em comparação com a alternativa atual: decisões humanas baseadas na aparência física, que também são frequentemente inconsistentes e repletas de preconceitos.












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