
Se olhaste para os preços da eletricidade no mercado grossista recentemente, podes ter ficado surpreendido. A Península Ibérica está a viver um momento histórico de excedente energético, com preços que roçam o zero, enquanto o resto do continente europeu continua a lidar com faturas pesadas. No entanto, este cenário idílico para Portugal e Espanha esconde um problema complexo de infraestruturas e interesses políticos que está a impedir a verdadeira união energética europeia.
Um muro elétrico nos Pirenéus
Os dados registados a 11 de fevereiro de 2026 mostram uma realidade de duas velocidades. Enquanto em Espanha o preço médio do megawatt-hora (MWh) caiu para os 4,23 €, em Portugal a situação foi ainda mais extrema, com o valor a fixar-se nos irrisórios 0,34 €/MWh. Em contraste, basta atravessar a fronteira para ver a Alemanha a pagar mais de 100 €, a Bélgica 72 € e os Países Baixos quase 89 €.
A culpa deste desequilíbrio tem um nome: França. O país vizinho atua como um tampão, aproveitando a energia barata do sul para o seu próprio consumo (pagando cerca de 13 €/MWh), mas bloqueando o fluxo para os países do norte. Esta situação, descrita como um "desacople total" devido às recentes tempestades atlânticas que impulsionaram a produção eólica e hídrica, foi detalhada pelo El Periódico de la Energía, que destaca como a Península Ibérica se tornou numa ilha energética isolada.
Desperdício de recursos e a proteção nuclear
O mais irónico desta situação é que Portugal e Espanha estão, literalmente, a deitar energia fora. Devido à falta de capacidade de exportação e à saturação da rede, ocorrem "vertidos técnicos" (curtailment), onde cerca de 7% da energia limpa gerada é desperdiçada porque simplesmente não há para onde a enviar.
Do lado francês, a resistência a novas interligações é vista como uma estratégia de proteção da sua indústria nuclear. Com um investimento colossal de 300 mil milhões de euros para rentabilizar, Paris teme que a entrada massiva de renováveis ibéricas a preço de saldo prejudique a competitividadade dos seus reatores. Esta visão é contestada por especialistas como Joaquín Coronado, que recorda que a Espanha não é 100% renovável e que, em anos anteriores, foi o sul que salvou a França durante as falhas nas suas centrais nucleares.
O futuro da ligação europeia
A Comissão Europeia já perdeu a paciência com este bloqueio e lançou um ultimato a França para resolver a situação. O objetivo é claro: permitir que a "bateria verde" do sul possa alimentar a indústria do norte. Para o consumidor português, isto significa que, embora o preço grossista da luz esteja baixo, a ineficiência do sistema impede ganhos maiores e desincentiva novos investimentos em renováveis.
Apesar dos entraves, há uma luz ao fundo do túnel. O projeto do cabo submarino pelo Golfo da Biscaia avança, com as obras de instalação previstas para começar já no verão de 2026 e a operação apontada para 2028. Até lá, a pressão de Bruxelas aumenta, tal como reportado pelo El Economista, numa tentativa de transformar a Europa num verdadeiro mercado único de energia, onde todos possam beneficiar do vento e do sol ibérico.












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