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pessoa a tocar em sistema digital

A consultora KPMG foi forçada a remover o seu relatório de outubro de 2025 sobre inteligência artificial após a descoberta de que a grande maioria das suas referências era inventada. Segundo avançou o Financial Times, uma investigação conduzida pela ferramenta de deteção GPTZero focou-se no relatório da KPMG intitulado Total Experience: Redefining Excellence in the Age of Agentic AI, desvendando falhas profundas na verificação de factos do documento.

A análise concluiu que, das 45 citações presentes no documento principal da empresa, apenas cinco apontavam para fontes reais e não corrompidas. As restantes 40 referências possuíam títulos falsos, um fenómeno que a própria consultora apelidou de citações por vibração, onde as ferramentas generativas criam referências fictícias de forma acidental, misturam informações de fontes verdadeiras ou parafraseiam títulos de forma drástica.

Para além das fontes inexistentes, cerca de metade das afirmações factuais suportadas pelas citações provaram ser incorretas ou mal atribuídas. A investigação revelou situações caricatas, como a utilização de um comunicado de imprensa de 2019 da East Japan Railway para provar o uso de agentes de inteligência artificial, numa altura em que este termo específico só entrou no discurso público em 2024. O sistema também confundiu frequentemente os temas dos artigos com os seus autores, creditando uma publicação sobre a Transport for London à própria entidade, quando na verdade tinha sido escrita por um blogger.

O impacto das informações não verificadas

O próprio relatório acabou por contradizer os dados internos da empresa. Enquanto o documento indicava que 55 por cento dos líderes executivos classificavam a inteligência artificial como a sua prioridade máxima de investimento, o estudo KPMG 2025 CEO Outlook, lançado no mesmo mês, fixava esse valor nos 71 por cento. As estatísticas e alegações incorretas já tinham sido reproduzidas por publicações do setor e começaram a ser integradas e citadas diretamente por grandes modelos de linguagem, como é o caso do ChatGPT e do Gemini.

A consultora removeu entretanto o documento da sua página oficial. Paul Esau, o autor do estudo, admitiu nas conclusões da investigação suspeitar que nenhum humano na empresa verificou as citações, as alegações ou as fontes antes da publicação. Um porta-voz da KPMG sublinhou que a organização leva muito a sério a exatidão e a integridade dos seus conteúdos, encontrando-se a rever as circunstâncias da publicação e recordando aos trabalhadores as diretrizes para a supervisão humana obrigatória.

Histórico de alucinações nas grandes empresas

O problema das alucinações geradas por máquina não é exclusivo deste caso recente e tem afetado outras gigantes da prestação de serviços. Em outubro do ano passado, a Deloitte teve de reembolsar parcialmente o governo federal australiano devido a vários erros num relatório causados pelo uso de inteligência artificial. De igual forma, em maio, a EY retirou um estudo focado em programas de fidelização que continha referências completamente inventadas.

O setor jurídico também tem sido palco de embaraços semelhantes. A sociedade de advogados Pinsent Masons foi alvo de fortes críticas por parte de um juiz do Tribunal Superior após apresentar submissões geradas por ferramentas automáticas que incluíam informações legais falsas. Em abril, a elite do direito norte-americano também vacilou, com a Sullivan & Cromwell a ter de pedir desculpa a um juiz depois de a sua equipa ter entregado documentação num caso mediático recheada de alucinações técnicas.

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