
A implementação da inteligência artificial no mundo corporativo esbarra constantemente num obstáculo frustrante. Apesar do sucesso nas fases de teste, a esmagadora maioria das organizações não consegue escalar estas iniciativas de forma transversal. Segundo informações avançadas pela Fortune durante o painel Brainstorm Tech ocorrido no início deste mês, o problema central não reside na tecnologia, mas sim na ausência de planeamento e de metas de negócio concretas. No extremo oposto deste cenário, a OpenAI regista uma taxa de adoção interna quase total, com 97,9% dos seus colaboradores a utilizarem agentes inteligentes nas rotinas de trabalho.
As empresas conseguem validar facilmente o funcionamento destas ferramentas em ambientes controlados. A falha surge no momento da expansão para toda a estrutura, resultando frequentemente na interrupção abrupta dos projetos, que se revelam incapazes de gerar impacto real nas contas ou na produtividade geral da instituição.
Governação rigorosa separa o sucesso do fracasso
Sean Bruich, diretor de tecnologia da Amgen, defende que a fase inicial deve servir para fomentar a experimentação, permitindo que surjam múltiplas ideias inovadoras. Contudo, o responsável sublinha que nem todos os projetos-piloto merecem passar à fase de implementação global. O sucesso da adoção em larga escala depende de critérios de avaliação rigorosos para filtrar as iniciativas que justificam verdadeiramente o investimento financeiro e humano.
Uma transformação estrutural exige a colaboração de vários departamentos, englobando áreas como os recursos humanos, as finanças e o suporte tecnológico. Para Bruich, a adoção destas ferramentas só cria valor quando transcende a mera eficiência de uma pequena equipa e produz resultados que impulsionem ativamente a empresa.
O mito da magia tecnológica nos processos corporativos
Lashonda Anderson-Williams, diretora de clientes e comercial da Salesforce, aponta um erro de perceção recorrente entre os executivos. O foco recai demasiadas vezes sobre a aquisição do recurso tecnológico, negligenciando a definição prévia do resultado pretendido. Sem um propósito claro, o software pode funcionar perfeitamente a nível técnico sem nunca trazer ganhos relevantes para a operação diária.
O funcionamento eficaz de agentes autónomos exige um conhecimento profundo e detalhado dos fluxos de trabalho já existentes. Muitas organizações não possuem os seus processos documentados de forma estrita, criando uma expectativa irrealista de que a tecnologia resolverá problemas estruturais de forma isolada.
Para o tecido empresarial português, onde a transição digital ainda procura consolidar-se em diversos setores tradicionais, este cenário serve de aviso crítico. Comprar licenças de software avançado raramente otimiza ineficiências se as informações essenciais permanecerem presas em silos departamentais. Caitlin Halferty, diretora na Thomson Reuters, reforça esta premissa ao destacar que a dispersão de dados em diferentes sistemas, aliada a exigências complexas de privacidade e permissões de acesso, bloqueia o crescimento orgânico das iniciativas tecnológicas. A solução passa por envolver as equipas de cibersegurança e privacidade logo na fase de levantamento de requisitos, preparando o terreno arquitetónico para uma expansão sem sobressaltos.












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