
Um esquema complexo de cibercrime, que envolveu o roubo de centenas de milhões de dólares e um estilo de vida luxuoso para um grupo de jovens hackers, conheceu esta semana um novo desenvolvimento nos tribunais norte-americanos. Kunal Mehta, um homem de 45 anos residente na Califórnia, declarou-se culpado de branqueamento de capitais relacionados com um roubo massivo de criptomoedas.
Conhecido no submundo do crime digital pelas alcunhas "Papa", "The Accountant" (O Contabilista) e "Shrek", Mehta admitiu ter lavado pelo menos 25 milhões de dólares provenientes de um golpe que totalizou mais de 230 milhões de dólares. O esquema, que visou uma vítima em Washington, D.C., resultou no roubo de mais de 4.100 Bitcoin num único ataque em agosto.
Uma rede criminosa nascida nos jogos online
De acordo com os detalhes revelados no processo, Mehta não agiu sozinho. Ele era uma peça fundamental numa engrenagem criminosa composta maioritariamente por jovens entre os 18 e os 20 anos, oriundos de várias partes dos Estados Unidos e do estrangeiro. Curiosamente, as amizades que formaram a base deste grupo desenvolveram-se através de plataformas de jogos online e comunidades digitais como o Discord.
O grupo especializou-se em ataques de engenharia social altamente sofisticados, conseguindo obter acesso às contas de criptomoedas das vítimas. Entre outubro de 2023 e março de 2025, os atacantes invadiram contas, manipularam vítimas e transferiram fundos para carteiras digitais sob o seu controlo.
Enquanto os membros mais jovens do grupo se focavam na identificação de alvos, hacking e roubo direto, Mehta assumia o papel de facilitador financeiro. A sua função era dar uma aparência de legitimidade aos fundos roubados, utilizando uma rede complexa de empresas de fachada criadas em 2024 e contas bancárias associadas.
O rasto do dinheiro e o estilo de vida luxuoso
Para tentar ocultar a origem dos fundos, o grupo utilizou técnicas avançadas de ofuscação na blockchain, incluindo "peel chains" (técnica de dividir transações em múltiplos endereços), pass-through wallets e o uso de VPNs para esconder a sua localização. Grande parte da Bitcoin roubada foi convertida para Monero, uma criptomoeda conhecida pela sua privacidade reforçada. No entanto, as autoridades indicam que o grupo cometeu erros críticos durante o processo, o que permitiu aos investigadores ligar o dinheiro lavado aos montantes originais roubados.
Pelos seus serviços, Mehta cobrava habitualmente uma taxa de 10%, convertendo a criptomoeda roubada em dinheiro vivo ou realizando transferências bancárias para os restantes membros do grupo.
O dinheiro obtido através destes crimes financiou um estilo de vida extravagante para os envolvidos. Os lucros ilícitos foram gastos em aluguer de jatos privados, segurança pessoal privada, malas de designer, relógios de luxo, noitadas em discotecas e viagens internacionais. As autoridades identificaram a compra de pelo menos 28 carros de luxo, com valores a variar entre os 100.000 e os 3,8 milhões de dólares.
O cerco aperta-se
Com esta confissão, Mehta torna-se o oitavo arguido a declarar-se culpado neste processo, conforme detalhado no comunicado do Departamento de Justiça dos EUA. O caso já tinha ganhado notoriedade em setembro de 2024, com a detenção de Malone Lam e Jeandiel Serrano em Miami, dois dos alegados líderes do esquema.
No total, catorze suspeitos foram acusados pelo seu envolvimento nesta conspiração, enfrentando acusações que vão desde conspiração para extorsão (RICO) a branqueamento de capitais e obstrução à justiça, segundo consta nos documentos do tribunal.
O FBI aproveitou a ocasião para reforçar o alerta sobre a prevalência de burlas online, aconselhando os cidadãos a nunca responderem a chamadas ou mensagens não solicitadas que peçam informações pessoais, senhas ou códigos de autenticação.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!