
A indústria automóvel continua a assistir a movimentos estratégicos interessantes, com antigas rivalidades a darem lugar a parcerias pragmáticas. A gigante norte-americana Ford está alegadamente em conversações com a fabricante chinesa BYD para o fornecimento de baterias. No entanto, ao contrário do que se poderia pensar, o foco não está nos veículos 100% elétricos, mas sim nos modelos híbridos destinados aos mercados fora dos Estados Unidos.
Esta possível colaboração surge num momento em que a Ford reajusta a sua estratégia global, afastando-se ligeiramente da eletrificação total imediata para apostar forte numa gama renovada de veículos híbridos e a gasolina.
Uma mudança de estratégia que exige novos parceiros
A notícia, avançada pelo Wall Street Journal, indica que executivos da Ford e da BYD estão em negociações, embora ainda não exista uma garantia de que um acordo final seja alcançado. A necessidade desta parceria nasce da recente realinhamento estratégico da marca norte-americana. Em dezembro, a Ford anunciou o cancelamento de vários modelos elétricos planeados, assumindo perdas na ordem dos 19,5 mil milhões de dólares, para redirecionar o foco para veículos híbridos.
Para concretizar esta nova visão, a marca precisa de garantir um fornecimento robusto e fiável de baterias. É aqui que entra a BYD, que, embora seja conhecida na Europa pelos seus automóveis, é na verdade a segunda maior produtora de baterias do mundo, logo atrás da CATL. A empresa chinesa, fundada originalmente em 1995 como fabricante de baterias, possui a escala e a tecnologia necessária para suprir as necessidades da Ford, especialmente no que toca às baterias Blade LFP (ferro-lítio-fosfato), conhecidas pela sua durabilidade e custos mais controlados.
Produção focada na Europa e arredores
Um detalhe crucial destas negociações é a geografia. Devido às restrições comerciais e tarifas rigorosas impostas pelos Estados Unidos à importação de tecnologia chinesa, estas baterias da BYD não se destinariam a veículos fabricados em solo americano. O foco estaria, sim, em unidades de produção localizadas na Europa e regiões vizinhas, como a Roménia, Espanha e Turquia.
Esta estratégia faz sentido quando olhamos para o mapa de produção da Ford na Europa. A fábrica de Valência, em Espanha, onde é produzido o Kuga (em versões híbrida e híbrida plug-in), surge como uma candidata óbvia para receber estes componentes. Da mesma forma, as instalações em Craiova, na Roménia, onde é fabricado o Puma, e em Kocaeli, na Turquia, responsável pelas versões plug-in da Transit e Tourneo Custom, poderiam beneficiar desta cadeia de abastecimento.
Colaboração não é inédita no setor
Embora a Ford tenha recusado comentar especificamente estas negociações, afirmando apenas que "fala com muitas empresas sobre muitas coisas", a verdade é que a relação entre as duas marcas não é nova. Desde 2020 que a joint venture da Ford com a Changan, na China, utiliza baterias da BYD nos seus veículos.
Além disso, a utilização de baterias chinesas por fabricantes ocidentais está longe de ser um tabu. A própria Tesla, por exemplo, utiliza células da BYD no seu Model Y produzido na Gigafactory de Berlim-Brandenburgo, em Grünheide. Se o acordo avançar, a Ford poderá assegurar uma vantagem competitiva no segmento dos híbridos e híbridos plug-in na Europa, contornando as tarifas adicionais da UE sobre veículos elétricos importados da China ao integrar os componentes em carros montados localmente.










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