
Para Tencia Benavidez, residente no Novo México, os treinos em realidade virtual não foram apenas uma moda passageira da pandemia. Há cinco anos que esta utilizadora frequenta regularmente o mundo do Supernatural, uma aplicação de fitness que se tornou essencial para quem vive em zonas rurais com invernos rigorosos e acessos difíceis a ginásios. Mais do que a conveniência, foi a autenticidade dos treinadores e o espírito de comunidade que a fizeram ficar.
No entanto, a recente vaga de reestruturações na gigante tecnológica de Mark Zuckerberg lançou um manto de incerteza sobre esta comunidade dedicada. A Meta adquiriu o Supernatural em 2022, integrando-o nos seus ambiciosos planos para o metaverso. A compra não foi isenta de obstáculos, tendo desencadeado uma longa batalha legal na qual a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) tentou bloquear o negócio, alegando práticas anticoncorrenciais para dominar o mercado de VR.
A empresa acabou por vencer em tribunal, e muitos utilizadores respiraram de alívio, acreditando que o poder financeiro da empresa garantiria o futuro da plataforma. "A Meta lutou contra o governo para comprar isto", desabafa Benavidez. "Tudo isso apenas para agora o encerrarem? Qual foi o objetivo?"
O fim de uma era para os estúdios internos
A desilusão instalou-se após a Bloomberg ter reportado, na passada terça-feira, que a empresa iniciou o despedimento de mais de 1.000 pessoas nas suas divisões de realidade virtual e metaverso. Esta decisão surge após anos de prejuízos multimilionários nestes segmentos.
Além de dispensar a grande maioria da equipa responsável pelo Supernatural, a empresa encerrou três estúdios internos de VR que produziram títulos de renome como Resident Evil 4 e Deadpool VR. Para a comunidade, a decisão parece puramente financeira, mas difícil de justificar emocionalmente. Goff Johnson, outro utilizador da plataforma, comenta que se a questão fosse o lucro, "poderiam ter aumentado o preço. Acho que as pessoas teriam pago. Isto parece apenas desnecessariamente cruel".
A comunidade encontra-se agora dividida. Enquanto alguns planeiam manter a subscrição, valendo-se das mais de 3.000 aulas já existentes na biblioteca, outros sentem-se traídos. A ausência de novos conteúdos e as dúvidas sobre a renovação de licenças musicais de grandes bandas levam muitos a cancelar o serviço. "O Supernatural é incrível, mas vou cancelar por causa disto", afirmou Chip, um utilizador que considera que o valor da subscrição deixa de se justificar sem novidades.
Comunidade mantém-se unida até ao fim
Apesar da existência de alternativas no mercado como o FitXR ou o popular Beat Saber, muitos fiéis do Supernatural sentem que estas opções não atingem o mesmo patamar de qualidade e conexão humana. Stefanie Wong, contabilista que utiliza a aplicação desde o início da pandemia, garante que ficará "até que apaguem as luzes", destacando que o valor real reside na comunidade e nos treinadores, e não apenas no software.
Numa das últimas sessões após o anúncio dos despedimentos, descrita pela Ars Technica, os utilizadores reuniram-se virtualmente para treinar ao som de Imagine Dragons. Entre socos em blocos virtuais e a respiração ofegante, a narração gravada da treinadora Dwana Olsen ecoava uma mensagem que ganhou um novo e amargo significado: "Aproveitem estes momentos. Usem estes movimentos para vos lembrar de quanta vida incrível ainda têm para viver".










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