
O recente apagão digital imposto pelo governo de Teerão serviu como um duro teste de realidade para os defensores da liberdade na Internet. Com uma quebra superior a 95% no tráfego de dados do país, o bloqueio expôs as fragilidades da conectividade via satélite, desmontando a crença popular de que serviços privados, como a Starlink, seriam suficientes para garantir comunicações livres em regimes autoritários.
Ao contrário de episódios anteriores, onde o foco estava nas redes móveis e fixas, desta vez as autoridades iranianas apontaram a mira diretamente às ligações por satélite. Estas eram vistas por muitos como a última fronteira para contornar a censura estatal, mas a realidade no terreno provou-se bem mais complexa e perigosa para os utilizadores.
Guerra em terra, não no espaço
Apesar de existirem mais de 8 mil satélites em órbita — e com luz verde para o lançamento de quase outros tantos —, a infraestrutura espacial revelou-se impotente perante o controlo físico do território. O Estado iraniano não precisou de atacar o espaço; agiu no solo. A tática passou pela interferência nos sinais de GPS, fundamentais para o funcionamento e orientação dos terminais de satélite.
O resultado foi uma Starlink tecnicamente ativa, mas na prática instável, com quedas frequentes e, pior ainda, acarretando um risco elevado para qualquer cidadão que tentasse utilizar o serviço. A utilização de "jammers" militares para bloquear sinais sem fios e o confisco direto de equipamentos demonstraram que a superioridade tecnológica não opera isolada das condições sociais e políticas onde se insere.
A tecnologia não vive num vácuo político
Este caso coloca em causa a narrativa "tecnossolucionista" que tem ganhado força nos últimos anos, a qual sugere que empresas privadas globais poderiam, sozinhas, substituir políticas públicas e defender a liberdade de comunicação. Quando a conectividade depende de hardware que tem de estar em solo, o poder coercivo do Estado continua a ser o fator decisivo.
Mais do que um problema regional, a situação no Irão levanta alertas para o resto do mundo, incluindo a Europa. A dependência excessiva de redes privadas estrangeiras deixa de ser apenas uma questão de conveniência tecnológica para se tornar um debate sério sobre soberania digital. Resta saber quem controla verdadeiramente os fluxos de informação em momentos de crise, como destaca a análise da Cybersecurity360.










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