
As baterias dos veículos elétricos modernos são extremamente fiáveis, mas o cenário era bem diferente há 20 anos, quando estes veículos se assemelhavam a pequenos carrinhos de golfe. Modelos clássicos, como o famoso G-Wiz do Reino Unido, eram alimentados por pesadas baterias de chumbo-ácido, que serviam o propósito no início da década de 2000, mas não resistiram ao teste do tempo. A tecnologia, no entanto, avançou a um ritmo impressionante, e hoje em dia até os vulgares cigarros eletrónicos descartáveis utilizam células de iões de lítio.
Uma segunda vida para os eletrónicos descartáveis
O grande problema destes equipamentos é que, tal como o nome indica, são deitados ao lixo pouco tempo após a compra, gerando um enorme impacto ambiental. Existe uma forte probabilidade de as células no interior destes vapes continuarem em perfeitas condições, tornando o seu descarte num desperdício pouco lógico. Foi com esta ideia que o criador de conteúdos Chris Doel decidiu provar que é possível dar um novo propósito a estes componentes, utilizando-os para alimentar um pequeno carro elétrico.
Engenharia caseira: 500 células e carregamento por USB-C
O projeto começou com a recolha de nada menos do que 500 células individuais de vapes. Após serem rigorosamente testadas para atestar o seu estado de saúde, foram integradas num conjunto de baterias feito à medida. As células foram arrumadas em suportes impressos em 3D, formando o que Doel chamou de "filas modulares". No final do processo de montagem, 14 filas foram ligadas em série, resultando num sistema de 50 volts e 2,5 quilowatts-hora (kWh).
Pode não parecer impressionante para os padrões da indústria atual, onde alguns modelos atingem arquiteturas de 900V, mas o G-Wiz, lançado em 2001, funcionava originalmente com um sistema de 48 volts construído a partir de baterias de 12V de chumbo-ácido. Assim, do ponto de vista técnico, a nova bateria de 50V adaptava-se perfeitamente às exigências do veículo.
Para garantir a máxima segurança da sua invenção, Doel instalou fusíveis em cada uma das células e utilizou um sistema de gestão de bateria (BMS) que previne sobrecargas, reduzindo drasticamente o risco de qualquer evento térmico adverso. O projeto incluiu ainda vários sensores de temperatura e uma estrutura exterior em alumínio para manter os componentes organizados e protegidos. Como detalhe final e bastante peculiar, a bateria pode ser carregada através de uma porta USB-C, tornando este G-Wiz num dos únicos veículos elétricos recarregados com este padrão universal.
Limitações no desempenho e autonomia real
O sistema está, no entanto, sujeito a algumas limitações técnicas. O principal obstáculo reside no facto de a nova bateria apenas conseguir fornecer uma potência máxima de 120 amperes, enquanto o motor do carro pode exigir até 300 amperes. Na prática, isto significa que pisar o acelerador a fundo faz com que o disjuntor principal dispare, interrompendo o fluxo de energia.
Ainda assim, numa condução realista e com um consumo contínuo na ordem dos 100A, o veículo conseguiu atingir os 64 km/h (cerca de 40 mph), um valor bastante aproximado do limite original de 80 km/h (50 mph). Em termos de alcance, a carga completa garantiu 29 quilómetros de autonomia (18 milhas), ficando aquém dos 80 quilómetros originais do G-Wiz.
Apesar de as distâncias não baterem recordes, o sucesso deste projeto prova que retirar centenas de pilhas do circuito do lixo e transformá-las numa fonte de locomoção real é uma iniciativa de engenharia engenhosa e válida, conforme documentado no canal de Chris Doel.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!