
Os Estados Unidos acabam de expor uma das maiores e mais sofisticadas operações de evasão aos controlos de exportação de tecnologia. Apesar de todas as proibições impostas por Washington, milhares de servidores de alto rendimento da Super Micro, equipados com as mais avançadas placas gráficas da NVIDIA, acabaram mesmo por chegar ao mercado chinês.
Para contornar o embargo, a rede utilizou uma rota logística complexa com paragem estratégica na Tailândia, tendo a gigante chinesa Alibaba sido identificada como um dos alegados destinatários finais do hardware. O detalhe curioso é que a acusação formal do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) evita citar nomes de empresas, referindo-se apenas a uma misteriosa "Company-1" sediada no sudeste asiático. Contudo, informações recentes apontam que se trata da OBON Corp, de Banguecoque, que terá funcionado como a ponte de trânsito para entregar o equipamento à Alibaba.
Segundo os documentos da justiça norte-americana, a operação foi orquestrada por Yih-Shyan "Wally" Liaw, cofundador e vice-presidente sénior de desenvolvimento de negócio de um fabricante de servidores dos EUA; Ruei-Tsang "Steven" Chang, diretor da filial em Taiwan; e Ting-Wei "Willy" Sun, que atuava como intermediário externo. Enquanto Liaw e Sun já foram detidos pelas autoridades, Chang permanece a monte.
O mercado paralelo mantém o fluxo de IA para a China
A estratégia do grupo impressiona pelo nível de planeamento. A empresa tailandesa encomendava os servidores norte-americanos alegando que seriam para uso interno. Os equipamentos saíam dos EUA para Taiwan e, de seguida, para a Tailândia. Chegados ao destino, os técnicos retiravam as placas da NVIDIA e reempaquetavam tudo em caixas totalmente neutras, sem qualquer identificação visual, enviando-as finalmente para território chinês. Os procuradores estimam que a rede tenha movimentado 2,5 mil milhões de dólares em encomendas entre 2024 e 2025, com pelo menos 510 milhões de dólares em servidores desviados num curto espaço de tempo, entre o final de abril e meados de maio de 2025.
Para fintar as inspeções de rotina e as auditorias do Departamento de Comércio dos EUA, os acusados chegaram ao ponto de construir réplicas físicas de servidores. Estas "carcaças" vazias ficavam armazenadas na Tailândia para criar a ilusão de que o inventário continuava intacto, quando as peças reais já estavam a processar dados na China. O esquema envolvia até o uso de um secador de cabelo para descolar e transferir etiquetas e números de série originais para as caixas falsas antes de cada vistoria.
A grande novidade no desenrolar deste processo é a ligação direta à Tailândia e à Alibaba. A OBON Corp, agora no centro do furacão, mantém laços estreitos com a iniciativa nacional de inteligência artificial tailandesa. A Alibaba, por sua vez, já veio a público negar categoricamente qualquer relação comercial com a Super Micro, com a OBON ou com os intermediários envolvidos, sublinhando que não utiliza processadores proibidos da NVIDIA nos seus centros de dados.
Super Micro afasta-se dos arguidos
Perante o escândalo, a Super Micro agiu de imediato para proteger a sua reputação, clarificando que não é visada no processo judicial. A empresa suspendeu Liaw e Chang, cortou todas as pontes com Sun e garantiu que estas ações violam de forma grosseira as suas regras de conformidade internas, reiterando total cooperação com os investigadores federais.
Todo este cenário desenrola-se num momento crítico para a regulação tecnológica. Os EUA fecharam a porta às exportações de chips de IA para a China em 2022, mas aplicaram uma ligeira inflexão em janeiro de 2026. O Departamento de Comércio passou a avaliar licenças caso a caso para componentes de topo, como as NVIDIA H200 ou as AMD MI325X, exigindo verificações de segurança e declarações estritas de utilizador final.
O caso prova que a fome da China por poder de processamento contorna facilmente a burocracia quando entram em jogo rotas de trânsito opacas e manipulação física de cargas. Para os EUA, fica o alerta claro: vigiar apenas o fabrico dos processadores não chega, sendo vital controlar toda a cadeia de abastecimento, desde os armazéns até à entrega final, conforme detalhado na publicação original da Reuters.












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