
A indústria automóvel, que ainda recupera dos traumas causados pela escassez de componentes durante a pandemia, prepara-se para enfrentar uma nova tempestade na cadeia de abastecimento. Desta vez, o culpado não é um vírus, mas sim a corrida desenfreada para a construção de centros de dados destinados a treinar e desenvolver modelos de inteligência artificial.
Segundo analistas da UBS, liderados por David Lesne, a explosão na procura por chips de memória impulsionada pelo "boom" dos centros de dados já está a ter consequências dramáticas, com alguns intervenientes do setor a admitirem aumentos de preços superiores a 100%. O relatório alerta que as perturbações na produção de veículos podem começar a sentir-se já a partir do segundo trimestre deste ano.
O dilema das bolachas de silício
O centro do problema reside nos chips de memória dinâmica de acesso aleatório, conhecidos como DRAM. Embora exista uma diferença técnica entre os componentes usados nos dois setores — os fabricantes de automóveis dependem geralmente de chips de memória mais antigos e menos avançados do que os utilizados nos servidores de IA de última geração —, ambos partilham a mesma matéria-prima fundamental: as bolachas de silício, cuja oferta é limitada.
Com a procura por chips de memória de alto desempenho a disparar, gigantes como a Samsung Electronics, a SK Hynix e a Micron Technology estão a priorizar o segmento dos centros de dados, que se revela significativamente mais lucrativo do que as aplicações automóveis. De acordo com Matthew Beecham, analista da S&P Global Mobility, os fabricantes de automóveis enfrentam agora uma janela de oportunidade cada vez mais estreita para redesenhar os seus sistemas e garantir o fornecimento necessário.
Veículos de alta tecnologia em maior risco
Nem todas as marcas estão expostas da mesma forma a esta nova crise. O relatório da UBS sublinha que os fabricantes e fornecedores mais dependentes de sistemas avançados de assistência à condução e componentes eletrónicos complexos correm um risco mais elevado.
Entre os fornecedores, a Visteon Corp. e a Aumovio SE parecem ser os mais vulneráveis. No lado das marcas de automóveis, empresas como a Tesla e a Rivian, cujos veículos são definidos pelo software e hardware avançado, enfrentam um cenário mais pessimista do que fabricantes tradicionais como a Ford ou a General Motors.
Este cenário traz memórias desagradáveis da pandemia de Covid-19, quando a escassez generalizada de semicondutores custou à indústria automóvel a produção de milhões de veículos. Recentemente, marcas como a Honda já tiveram de paralisar a produção devido a interrupções ligadas à Nexperia BV, conforme detalhado num relatório da Bloomberg. A indústria terá agora de agir rapidamente para blindar as suas estratégias de aprovisionamento antes que as linhas de montagem parem novamente.










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