
A indústria automóvel europeia vive um momento de "cuidado com o que desejas". A Mercedes, juntamente com vários outros fabricantes, passou grande parte dos últimos anos a pressionar Bruxelas para suavizar a proibição da venda de novos carros a combustão, prevista para 2035. Agora que a União Europeia parece disposta a ceder e a rever as metas agressivas para um futuro totalmente elétrico, o CEO da marca alemã avisa que estas mudanças podem estar a criar um cenário ainda mais complicado.
Em declarações à Reuters, à margem do lançamento do novo Classe S, Ola Källenius afirmou que, embora a UE tenha "aberto ligeiramente a porta por agora", existe um "grande risco de que o mercado encolha nesse caminho". Para o executivo, o problema central deixa de ser a meta em si e passa a ser a incerteza de um livro de regras que ainda está a ser reescrito.
O custo oculto da flexibilidade
À primeira vista, uma data limite rígida em 2035 parecia brutal para a indústria. No entanto, era um alvo claro, fácil de compreender e que permitia um planeamento linear. O que alarma agora os fabricantes é a proposta da Comissão Europeia de mudar de uma proibição total para uma meta de redução de 90% de CO2 em relação a 2021. Embora pareça um alívio, esta mudança força as marcas a ajustarem os seus planos sem saberem exatamente ao que se devem adaptar.
Mesmo que fabricantes como a Mercedes-Benz afirmem ter a flexibilidade necessária para entregar os motores que o mercado exige, manter essa flexibilidade é financeiramente doloroso. As marcas europeias já tinham começado a desviar o investimento dos motores térmicos para as baterias e software. Agora, com a suavização das metas, veem-se obrigadas a reinvestir no desenvolvimento de motores a combustão — uma tecnologia que muitos pensavam estar em fim de vida — para garantir que estes cumprem as normas, especialmente com a rigorosa norma Euro 7 a entrar em vigor no final de novembro.
Esta "dupla despesa" obriga a manter vivas as equipas de investigação e desenvolvimento de híbridos e combustão por mais tempo do que o previsto, drenando recursos que seriam cruciais para a eletrificação total.
O regresso dos motores térmicos e o exemplo americano
A revisão das regras sugere que novos carros a combustão poderão continuar à venda após 2035, mas é provável que a maioria dos fabricantes preencha as suas gamas com híbridos plug-in e extensores de autonomia para cumprir os requisitos de emissões "no papel". Segundo estimativas da Transport & Environment, cerca de 85% dos carros novos vendidos na UE após 2035 deverão ser totalmente elétricos, mas o cenário final dependerá da estratégia de cada marca: se apostarem nos híbridos, os motores a combustão podem ainda representar 50% do mercado; num cenário mais focado em elétricos puros, essa quota cairia para 5%.
Esta hesitação não é exclusiva da Mercedes. A estratégia da Porsche ilustra bem a rapidez com que os planos mudam: a marca anunciou que está a desenvolver novos substitutos a combustão para os atuais 718 e Macan, modelos que anteriormente estavam destinados a ser exclusivamente elétricos. Existem até relatos de que o 718 elétrico poderá ser cancelado devido a atrasos e dúvidas sobre a procura.
Do outro lado do Atlântico, o cenário repete-se com custos astronómicos. A General Motors prevê perder 6 mil milhões de dólares, principalmente devido ao cancelamento de contratos com fornecedores, enquanto a Ford anunciou em dezembro que o desvio da sua rota de eletrificação para voltar a apostar na gasolina custará quase 20 mil milhões de dólares ao longo de vários trimestres.
Para a Mercedes, o futuro imediato passa também por uma correção estética. A marca está a preparar uma linha de veículos elétricos com um visual mais convencional, como os futuros Classe C e Classe E elétricos, abandonando o design em forma de "ovo" da linha EQ que foi alvo de várias críticas. No entanto, com regras em constante mutação, planear a próxima década tornou-se um exercício de alto risco e custos elevados.










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